Local chances

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Lembro de, há muito , termos marcado um encontro em algum lado, às 9.

Lembro-me das paredes amarelas, do sol a entrar pelas janelas, do riacho que corria próximo lá fora, da água limpida onde o sol reflectia e onde os dois víamos o nosso reflexo a rir.

Um filho cresceu-lhe no ventre e eu assisti

Encontrei-te nos olhos dele meu amigo. Vi a tua ternura, que escondias para te fazer forte e macho, vi a mesma doçura que era das únicas a conhecer, e prometi não o abandonar como te abandonei a ti por me amares demais.  Nunca dês a ninguém mais do que alguém pode aguentar sem fazer sofrer

  Vi o filho aninhado, na sua posição de feto, a pedir-me sem que ninguém percebesse, que não lhe destruísse o ninho.

Já não habitas aquele local. Foi ocupado por alguém que eu não conheço. Um casal. Parecem ser felizes. Pintaram as paredes de preto e branco e falam de coisas de que não sei falar, de realidades que não conheço de sítios que nunca vi. Não me dizem nada. Não lhes digo nada também. Vivemos em mundos diferentes, com diferentes preocupações.

Será que ainda lá está o riacho? Se o ouvisse correr ainda me faria sorrir ?

Dizem que a memória volta antes do fim. Que mesmo depois do coração parado o cérebro ainda funciona. Terás ficado à espera que mais uma vez fosse procurar-te nos recantos da mente onde te escondias para te ancorares no sofrimento? Terás desistido ao fim de quantas horas? Terei, por uma só vez chegado tarde demais para te salvar de ti próprio?

Recordo a sala da música como o último sonho, o único local só nosso. Não voltei a partilhá-lo com ninguém. Volto lá, sempre que a culpa me assalta e me sinto expoliada do sentir. Já não te encontro. Encontro outros que imaginei. Preencho-me com os restos que me sobram de palavras, de ilusões, de um sentir sem abrigo, que marcou encontros em lugares incertos para ver parir a felicidade que se espalha por mãos alheias.

E ainda assim foi um sorriso que me matou. O sorriso de escárnio e vitoria de alguém que não passa de uma cópia mal parida desses que falam de coisas que eu não sei o que são…

Tenho saudades tuas meu amigo. Mas sei que vives ainda na ternura daqueles olhos.

Não volto mais àquele lugar, nada do que lá está agora, posso em algum momento, declarar como meu!  Mesmo que tenha havido a possibilidade de me ter encontrado contigo, ali.