Frágil Rosa do Japão

Já foi uma das minhas músicas favoritas. No tempo em que o único desejo que pedia às estrelas era ser feliz…
Muito simples. Tudo o resto será excesso…
perdi palavras, demasiadas, pelo caminho. Perdi vontades. Ganhei uma eu, desconhecida, cinzenta, que não conheço e com a qual não sei lidar.
Porra, tanta coisa nova ao mesmo tempo, eu que nunca gostei de demasiadas novidades ao mesmo tempo. Lenta,demasiado lenta em estruturar toda a informação. Tanta coisa que não conheço, com a qual não sei lidar, no fundo só me apetece fugir, deixe-me só fugir e esconder-me a observar como se fosse um bichinho assustado, deixem-me…sinto-me mais segura assim…
Quase como se tivesse nascido de novo, de um parto dificil, sou ainda demasiado nova para conseguir sequer gatinhar, quanto mais andar… O mundo é para mim um lugar desconhecido, novo, e o meu olhar deslumbra-se com tudo, como se tudo fosse uma nova oportunidade de aprendizagem, pessoal e social, muitos anos depois da hora certa.
Por enquanto preciso amar-me como uma frágil rosa do Japão precisa de muito cuidado…

Pronunciando silêncios

O meu barco perdeu o rumo desprovido que está do barqueiro mas espera ainda que o rio corra para o mar… e um dia chegará a esse porto mais que sentido.
Por agora apenas a voz de nascente limpida me permite ir vogando à deriva…entre pronuncios de morte.

Sentei-me nas escadas que espreitam o quintal. Ao fundo a música batuca com a fúria de uma festa brava. As luzes iluminam o céu e o movimento da rua lá atrás, que se transforma em avenida por estas alturas, incomoda-me, por isso venho para o quintal.
A velha laranjeira cumpre a sua missão perante a natureza. A luz da lua ilumina a ainda vistosa copa verde, agora já despida dos seus brincos laranja.
Lá dentro ela perde-se em pensamentos, tristezas e músicas, corredor acima, corredor abaixo tentanto arranjar justificativas para o que não tem justificação. E eu observo-a de longe sabendo que pouco ou nada lhe posso fazer quando se deixa chegar ao limite. Observo-a apenas, pois é essa uma das coisas que mais gosto de fazer, observar o mundo que se pôs ao meu redor e eu dentro dele.
Saímos por fim, hoje convenci-a a largar as quatro paredes que toma agora como fortaleza. O comboio urbano sai-nos ao caminho e já lá dentro o sorriso das crianças contagia-me, como se o simples gesto de acenar a quem fica pudesse ser uma alegria suprema.
Chegamos. Os rostos são em maioria os mesmos, mas o tempo vai pintando com vários tons, aprofundando ou não detalhes como se esta fosse uma tela nunca acabada. As pessoas são como as marés vão e vêem e a cada nova vinda trazem algo de novo e a cada nova ida levam algo insubstituível.
Julgo saber alguma coisa, mas se realmente me der conta pouco ou nada sei e a ignorância implica-me com o ego, sempre assim foi.
Ela continua por ali, à minha volta, quase imperceptível. Sei no que pensa. Conheço-lhe ou julgo na minha ignorância conhecer-lhe o que lhe vai por dentro. Foi esse feitiço da lua que a tornou assim e que ela julgou puder caber num livro. Mas é maior, muito maior que qualquer conjunto de folhas, letras ou palavras. Não por ser importante mas por ser o mundo para ela, sentimentos podem trocar-nos as voltas e virar as rodas da vida do avesso.