Sentei-me nas escadas que espreitam o quintal. Ao fundo a música batuca com a fúria de uma festa brava. As luzes iluminam o céu e o movimento da rua lá atrás, que se transforma em avenida por estas alturas, incomoda-me, por isso venho para o quintal.
A velha laranjeira cumpre a sua missão perante a natureza. A luz da lua ilumina a ainda vistosa copa verde, agora já despida dos seus brincos laranja.
Lá dentro ela perde-se em pensamentos, tristezas e músicas, corredor acima, corredor abaixo tentanto arranjar justificativas para o que não tem justificação. E eu observo-a de longe sabendo que pouco ou nada lhe posso fazer quando se deixa chegar ao limite. Observo-a apenas, pois é essa uma das coisas que mais gosto de fazer, observar o mundo que se pôs ao meu redor e eu dentro dele.
Saímos por fim, hoje convenci-a a largar as quatro paredes que toma agora como fortaleza. O comboio urbano sai-nos ao caminho e já lá dentro o sorriso das crianças contagia-me, como se o simples gesto de acenar a quem fica pudesse ser uma alegria suprema.
Chegamos. Os rostos são em maioria os mesmos, mas o tempo vai pintando com vários tons, aprofundando ou não detalhes como se esta fosse uma tela nunca acabada. As pessoas são como as marés vão e vêem e a cada nova vinda trazem algo de novo e a cada nova ida levam algo insubstituível.
Julgo saber alguma coisa, mas se realmente me der conta pouco ou nada sei e a ignorância implica-me com o ego, sempre assim foi.
Ela continua por ali, à minha volta, quase imperceptível. Sei no que pensa. Conheço-lhe ou julgo na minha ignorância conhecer-lhe o que lhe vai por dentro. Foi esse feitiço da lua que a tornou assim e que ela julgou puder caber num livro. Mas é maior, muito maior que qualquer conjunto de folhas, letras ou palavras. Não por ser importante mas por ser o mundo para ela, sentimentos podem trocar-nos as voltas e virar as rodas da vida do avesso.