Classificados

Só o estar: um inicio, um principio ou um começo nascem da vontade incontrolável de romper entranhas – rasgar uma pele já gasta de propósitos sem propósito.
Descobrir: A maravilhosa luz que se interpõe entres as sombras – mostrando a realidade que se sobrepõe ao sonho, reconhecendo-lhe as cores -, fruto de um colher de saberes entrelaçados na naturalidade da árvore mãe, que espalha os seus ramos tocando o céu e o chão nesta enorme construção que é a vida.
Esquecer: Por vezes esquecemos as coisas importantes que são ditas buscando passados em  que os mortos morreram e os vivos renasceram para a vida.
Reconhecer: O amor à beleza ultrapassa corpos, almas, gostos, propósitos; inventar uma nova realidade onde todos os tiros acertam no alvo do vício pelo BEM
Classificar? Há coisas que são, sem classificação…

Coração

…vou já. Subo as escadas a correr. Abro a porta num rompante de quem deseja não ter sequer que a abrir, passo em frente ao espelho e miro-me – só mais uma vez para ter a certeza que continua tudo no sitio certo, tudo no lugar devido – calço os ténis para me sentir confortável; o padrão de xadrez continua a ser o meu favorito mesmo ao fim de tantos anos, será que ainda é o teu?
…vou já. Aproximo-me devagar. A caixa continua lá em cima – distante, quase invisível aos olhares desatentos- subo a cadeira onde a roupa se foi acumulando ao longo dos últimos dias. Intacta, o laço – disparates de menina – mantém firme o seu propósito de contar silenciosamente intentos alheios de desatar segredos.
Desfaz-se um laço, desatam-se amarras de antigos medos. Destapo a caixa devagar, talvez com medo ou receio do que vá encontrar. Lá dentro ele mantém o seu esplendor: a cor rubra – como se o tempo não tivesse galgado os atalhos que a liberdade do caminho lhe dá -, pulso forte – bate como se nada fosse -, vivo intenso, indiferente à caixa que o encerrou na escuridão. Restituo ao peito onde é o seu lugar. A caixa fica vazia, jogada no chão- laço perdido em outros laços achado.
…vou já. É esta ainda a vida do meu coração

Saudade…
Saudade do toque, do cheiro, da pele, do riso… o amor vive envolto num pano de saudades, que ajudam a colorir a vestimenta que é a nossa. Não vivemos sem roupa; o frio: terrível, invisível inimigo, acaba por nos tolher os movimentos, renegando-nos a uma quietude mortal, mortífera. Não vivemos sem amor: a vida perde a cor, a água nasce dos olhos retirando-lhes o brilho e a esperança fica encerrada, fechada num qualquer lugar escondido.
Sair, abrir os braços, acolher o amor que esteve, está sempre ali para nos acolher, mesmo quando insistimos em não aceitar a diferenças, as nossas, as alheias.
Não chores mais; a saudade aumenta, potencia todas as capacidades. Nascem-me a música e as palavras como magia em frente aos olhos e a magia vem de ti e do tempo que nos falta ainda para chegarmos a um destino – ar…jeitinho…ar…