Lembro a agua que escorria da fonte, acompanhada do barulho tempestuoso que da minha compreensão de menino fazia cinzentas as ideias imaginadas e o dia mudo .
Os silêncios que guardo das incompreensões, das perguntas nunca feitas das palavras nunca ditas são como cascatas de letras desconjuntadas em palavras sem sentido que se acumulam nas lembranças e a que falta sempre uma peça que ninguém se lembra onde pôs.
– Páras sempre que por aqui passas…
É porque me lembro dela, dos seus silêncios, de como olhava sempre embevecida , a fonte, como se menina fosse também, como se as minhas dúvidas fossem as suas. E os silêncios…esses silêncios que se escondiam entre as pausas das demasiadas palavras , que de tantas, tão juntas, para se aquecerem, para nos aquecerem , nada diziam, Perdiam-se na multidão de letras e sentidos e esvaziavam-te de culpas, ou solidões ou o que foi que nunca soube. Perguntas sem resposta…
-Nunca me disseste realmente, porque paras sempre a olhar a fonte quando aqui passas?
Perguntas sem resposta… não olho a fonte , olho-a a ela, tentando por uma ultima vez compreender os segredos que se escondiam, por entre as palavras que dizia incoerentes com o que os silêncios escondiam.
Olho a fonte, como se a olhasse a ela. Como se a pergunta, de onde vem tanta água ? A água é sempre a mesma filho , fosse a resposta a todos os enigmas, encriptando em si o segredo das nossas vidas.
Que água continhas tu mãe? Que eras sempre a mesma , que de mim sabias os segredos que não dizia e de ti não soube nada. Tal como a água, que jorrava da fonte em aspecto tempestuoso, e era sempre a mesma , também tu, parada a olha-la ( a água? a vida? ) parecias conter em ti tempestades… perguntas sem resposta…
– Deixa lá a fonte! Ainda perdemos o autocarro.
Perdi… perdi-te… nos olhos recordo as águas contidas, o beijo na testa
– Vá! À tua vida, que eu cá me arranjo. Um aceno apenas, e um mundo de silêncios entre as comuns palavras de despedida. Metade de um país de distância e sei-te um mundo de solidão sem uma unica palavra.
Quem foste tu afinal? Quem serei eu se não te souber a ti que me sabes de cor.
De que servem as palavras, quando nos däo tudo o que somos mas no fim não dizem nada ? E tu mãe, de que fonte bebias tu, mulher que foste…
Um ultimo olhar à agua que escorre enquanto o autocarro arranca. Toca o telemóvel.
– Olá mãe, como foram os teus dias?