O que é a vida. Amor?

É noite e a luz da lua cobre com o seu nobre manto pálido, numa coloração semi-gelada o calor que a Terra ainda evapora.
– Sonhas…
-Como sempre…
– Com que sonhas?
– Com um país edílico onde a natureza terreste faz amor, permanentemente, com o cosmos que a envolve.
– Fascina-te a natureza…
-Sempre, toda ela. A perfeição dos corpos, animais e vegetais, assim como dos corpos celestes. A dança contínua entre a quimica e a física, que se atraem e repelem num movimento incessante que produz energia…a criação ( biologica, psicológica, até a menos lógica) a mística dos segredos da perfeição matemática, as propriedades curativas escondidas na natureza combinadas com as cabalas e as superstições. Tudo o que abarca a vida me fascina.
– E o que é a vida?
Olhei-te. A pergunta não se enquadrava no quadro de referências que tenho de ti. Não que seja de ideias pré-concebidas, mas pressenti uma pergunta interna e não uma conversa comigo ( não é costume).
– Diz-me feiticeira, o que é a vida?
A vida meu amor, a vida é simples. A vida é o que temos dentro de nós. Esta magia que nos deram à nascença e que cada um utiliza ou desperdiça como quer ( calei-me, não te respondi, não sabia se era isto que te queria dizer). Acendi as velas que repousavam em cima da mesa. As purporinas do copo, com a luz, brincavam e espelhavam-se no tecto do alpendre jogando às escondidas com as sombras.
– Vês? A vida é como este copo com esta vela lá dentro. Se a vela estiver apagada, se não lhe dermos luz, nunca poderemos imaginar a beleza que produz, quando se reflecte nas purporinas.
– Essa tua forma de olhar a vida é utópica, já pensaste nisso?
– Já, penso nisso todos os dias e agradeço esta utopia que me invade. Foi a utopia que levou o Homem para lá do mar, para lá da terra, para lá do ar e até para lá das suas próprias barreiras e limitações internas. É a utopia que me faz amar, que me faz amar-te.
Calaste-te, nunca te tinha dito explicitamente, porque há coisas que se vêm e se sentem mesmo sem haver palavras que as definam… embora as palavras marquem, para sempre, o que acontece.
– São bonitos os teus copos, dão um efeito engraçado à luz das velas.
– …
– Está bonita a lua hoje, e este calor, apetece estar no alpendre.
– …
Depois foi o céu, e a lua, as estrelas, o chão ( nem sempre é duro o chão) as purporinas a dançar com as sombras nas paredes, o calor, o suor e a tua respiração.
Depois fomos nós e a natureza e os corpos, celestes, entre quimicas e fisicas…foi a vida, a utopia e a vela que ardeu até não sobrar nem mais uma sombra de prazer naquela noite.