Podia escrever-te uma carta

Podia escrever-te uma carta. Sei que é o que queres, mas não tenho nada para te dizer. Gostaram – se – me as palavras. Acontece, sabias? O ponto em que já foi tudo dito, e tudo o mais são redundâncias. Prefiro ficar mimando a minha imaginação, como se fosse uma boneca velha. Aquela boneca favorita que nos acompanha o resto da vida, simplesmente porque, o tanto afecto que lhe temos não nos permite dispensá-la. Não me parece sequer que seja esse o teu estatuto, prefiro a boneca velha, a minha imaginação.
Gastaste – me as palavras em fundamentos sem fundações, em discussões sem argumentos, em cansaços de explicações de coisas que não eram para ser percebidas. Porque nem tudo se percebe, nem tudo serve para ser falado, nem tudo pode ser calado.
Gastas-te-me as palavras e mesmo que te quisesse escrever uma carta, não saberia sobre que assunto te falar. Não sobrou o que dizer, gastámos em nós tudo o que havia para ser consumido.
O meu pensamento já não deseja , já não procura. O beijo perdeu o sabor, o teu corpo adormeceu longe do meu e não o sinto no meu leito de aconchego. A chama extinguiu-se de tanto soprar ventos na vela. Prefiro a boneca velha da minha imaginação…
Podia escrever-te uma carta, mas só restou o silêncio para nos preencher e um fogo por reacender…

Desfaço-me em mim

Encostada na encosta observo o mar…
Mergulhar ou não mergulhar?
Ainda mergulho na mar de lágrimas que deixaste no meu caminho. Ainda tento nadar em salvação para encontrar a margem. À margem de tudo. Os braços parecem-me sempre fracos para chegar. E sonho em pesadelos, com o meu próprio afogar. Afogo-me no suor que me fica do teu pensar em mim. Sem ti. Desfaço-me aos poucos como uma corda velha que por demasiado uso perdeu a sua força…ou não talvez tenham sido as voltas da vida que destroceram os fios e desunidos enfraqueceram… Que digo eu? que sonho eu? Quem escreve por minhas mãos estas palavras? Onde vou pairar agora, em que sonhos morarei depois de atravessar o mar de lágrimas da tua paixão?
Desfaço-me em mim, depois de ti. Sou eu os ligamentos desconjuntados de uma corda de força. Torcer e retorcer sem retroceder. O mar ficou para trás. Procuro-te nas ondas que o meu cérebro emana e nem um sonho te persegue. Perdeste-te. Afoguei-te no mar das minhas lágrimas…
Quem sou eu, quem eras tu…perguntas sem nexo para uma quase desafogada. Nem me interessa o que te interessa.Sem pressa, o mar de lágrimas ficou para trás e eu desfaço-me em mim, torço e retorço sem querer mais retroceder

Saudades da chuva

Se te dissesse que tenho saudades da chuva, dirias que não me conheces…será que dirias? Será que te conheci?
Tenho saudades da chuva, do chilrear da água que cai sem resguardo e nos resguarda no calor das recordações.
Tenho saudades das tardes de tédio com o chá e contigo por companhia. As tardes em que contavamos as gotas de chuva que conseguiam alterar o seu percurso após o confronto com a velha mesa do quintal…a mesa onde um dia perdemos a cabeça, o corpo, o radar… a mesa onde tudo começou por acabar.
Tenho saudades de te contar, coisas de que nem sempre me lembrava, mas contava pelo prazer de te ver ouvir-me.
Gostava que me ouvisses. Foi quando o som deu lugar ao cheiro e ao sabor do teu sentir, que tudo começou por acabar. E eu…tenho saudades que a chuva lave o que me resta das tuas lembranças e que as gotas mudem de rumo anunciando novas primaveras.
A mesa fica insuportável com a tua imagem presa no vazio do meu olhar…