Um livro apenas

Sento-me. À noite a casa fica mais calma para se poder ler. A chatice da leitura é que necessita de luz e eu…eu prefiro mil vezes as sombras onde podemos indefinir qualquer coisa, na sua definição.
A roupa amontoa-se por todos os lados. Aqui tudo se amontoa. Vão se criando montinhos ordenados como se estivessem no seu lugar, mas nada nunca tem lugar nesta casa onde habito. Falta o meu eu aqui.
Abro o livro. A luz retira-me o prazer da companhia dos senhores das sombras, os medos irracionais que me fazem pular o coração como se estivesse apaixonada.
Apaixonada…nos livros que leio há sempre uma história de amor que acaba bem. Alguém me dizia um dia: as histórias de amor acabam sempre bem ou não são histórias de amor, ao que inevitavelmente respondia: tudo o que acaba, acaba mal, senão não acabava.
Este livro está no fim, não acaba bem nem mal. Acaba apenas. Foi uma história apenas. Acaba talvez por falta de emoção de quem o escreve. Emoções passam-se de todas as formas, como se fosse algo que se colasse a nós só pela proximidade, assim como a luz traz a claridade e a penumbra traz a indefinição, as emoções trazem consigo sensações que se colam a nós.
O livro acabou, mas a mesa aninha um amontoado de outros livros que esperam por mim. Tal como a roupa espera pelo meu corpo, e eu espero por um novo dia vestido de manhã.
Apago a luz, as sombras voltam. Peço silêncio aos senhores das sombras ( os medos). Agora é hora de dormir. Não quero perceber nada indefinido, nem ouvir os seus murmúrios com que escondem seus segredos. Quero dormir e sonhar com uma história de amor que não tem fim e vive dentro de um livro que transpira emoções.