a última esperança

A última esperança está dentro de mim. Procuro, por dentro, nas curvas que o tempo obrou pelo caminho, nos recantos escondidos, nos lugares onde só eu sei entrar. A última esperança está dentro de mim e eu não a encontro.

É do vazio que tenho medo, que sempre tive. Neguei-o em todas as ocasiões, barrei-lhe a entrada tendo como arma a felicidade, amiga das horas vagas e das outras, de tantas, tantas outras. Mas ele chegou, ocupou os espaços, que se tornaram maiores, com a imensidão que o vazio traz consigo. Foi tanto de mim conquistado,  ocupado, explorado pelo vazio, que procuro a esperança e não a encontro…

Sentas-te de novo a meu lado.

 Pensei que te tivesses ido com o vazio, mas juraste proteger-me mesmo quando isso fosse contra a minha vontade, à muito que te enterrei e não te quero aqui. mas quem pode lutar contra a força do que não conhece… e com a chegada do vazio quiseste de novo ocupar, também tu, alguma espaço por aqui…

Que me queres?
Nada. venho só em companhia, para teres com quem falar, que falar para o ar faz das pessoas estranhas.
Volta para a cova para onde entraste e onde é hoje o teu lugar.
Para quê?
Entre mim e o vazio ao menos tens com quem gritar.
Queres ajuda? Para encontra-la?
para quê, da ultima vez que me ajudaste, paguei a minha vida com isso, e perdi a esperança.
Porque sou o melhor que tens, e pelos vistos, não há muito por aí quem te saiba ajudar, se não a a abrir mais espaços para o vazio.
Tens uma eternidade para não fazeres nada, se me quiseres ajudar fica por aí, mas tenta não destruir nada enquanto por cá estás.
E eles? conseguiram melhor que eu?
Não.
Então de que te queixas? Bem te avisei que na vida, só podes contar contigo. à minha maneira tentei mantê-la perto de ti. Os outros esconderam-ta? Na matemática final, quem ficou a perder foste tu. Eu porque já não me importo, outros porque nunca se importaram e outros ainda, coitados, porque não fazem a mínima ideia do que andam a fazer. Sabes que as vezes me divirto com isto? a vê-los querer que te dobres, quando se não te derem motivos suficientemente fortes, agora, já nem a saúde to permite…
E já te divertiste tudo?
Não me que agrade particularmente rir-me porque a perdeste. Não me agradam particularmente os espaços vazios que encontro quando te venho ver. Mas também não vejo muito mais a fazer senão tentares encontrá-la.

Mas,…prepara-te, já não a vais encontrar, não a mesma que perdeste. está uma outra por aí, diferente, moldada aquilo que a vida fez, não a ti, mas a todo o caos que é o universo e que, por isso, transforma as coisas à medida do tempo, que é uma medida que se mede sem escalas, sem contagens. Ela está aí, só tens que a reconhecer. Apaga tudo o que ficou para trás, se trouxeres farrapos de reconhecimentos, desvia-te, não será , certamente, a esperança que procuras. não sei onde está, como é, mas haverá com certeza algo dela dentro da imensidão do vazio onde te encontras.

 E agora vou-me embora, tens razão, já não precisas de mim. Falas melhor sozinha e os sonhos que , um dia , tivemos em comum, morreram todos comigo…por isso que não encontras, queres uma esperança vestida com as cores que imaginamos construir, e esse traje, morreu connosco. Morreste também tu. Só se encontrares motivos suficientemente fortes para voltares a nascer, a esperança ocupará o teu espaço vazio.