Vida sem nexo

Não acredito no amor. Não acredito na maioria das pessoas. Não acredito em boas intenções da parte de desconhecidos. Mesmo assim existem e espero que existam. Envolvo-me com as surpresas agradáveis que esporadicamente me fazem sorrir. O resto são intenções – más na sua maioria – outras sem proposito concreto, que não prejudicam nem trazem o bem escondido. O manta da desconfiança finalmente envolveu este corpo que luta contra o gelo que emana do interior dos seres humanos que se atravessam nos caminhos que percorro. Sou como um insecto que vagueia, procurando o calor, onde poderá encontrar sangue pulsante que me faça voltar a acreditar. É no fogo que reside a essência do que nos faz vibrar.
 O fogo extinguiu-se.
Não há chama que me consuma, nem tão pouco encontro chamas que me me chamem, apelando à tentação.

Disfarço a frieza, afogando-me em mim e transformando em sonho a vida. Falando comigo, troco ideias, quando a esterilidade das palavras emprenhou a raiz de todas as coisas novas. As palavras são o material mais inerte que conheço, valem zero, sem o calor do fogo que as deve gerar. Desprezo o morno, por me servir apenas de refeição de sentidos, sem a qual não poderia manter-me.

E ainda assim recorro, socorrendo a mágoa, secretando a raiva como vou conseguindo, obrigando-me a acreditar que chegará o dia em que nada será conseguido com o combustível do esforço e escorrerá naturalmente por dentro das feridas, sarando-as.  E a naturalidade do tudo que ainda estará por vir, salvar-me-á do trapo amarrotado em que me fui transformando para tomar a forma, que supostamente deveria adquirir, para me adaptar ao gelo com que os seres humanos, hoje, se orgulham de se esculpir chamando-lhe estabilidade.