Impulsos

Num impulso…e tudo muda. Iluminam-me os seres de luz que se passeiam, em frente a meus olhos, e que eu admiro . À minha volta tudo se transforma, muda, reforma-se, mas a minha lentidão adapta-se expandindo como se fosse a menina dos olhos que absorve a luz, captando tudo. 
Tento agarrá-los, prende-los na mão, guardá-los para sempre, para que nunca se perca a sensação de luz que me invade na sua presença…mas as mãos não prendem o que nasce para ser maior do que a própria admiração. Num impulso, liberto. Antes que se estrague, que os estrague. É no seu próprio voar que reside a luz. Liberta, voam ao meu redor, como sendo parte de mim. E tudo parece estar no seu lugar, dentro de mim, como num impulso onde, tudo de reinicia. 

Tus e eus

E, se desta vez, só para variar, eu gostar do que vejo? Gostar do que sinto, gostar do que sou. E, se desta vez, só para variar, o que poderá estar para vir não me virar o pensamento, de tal forma que não deixe vir nada? E se desta vez, eu estiver aberta a sugestões que me possam sugerir mais de mim?
E se pela primeira vez eu me tiver encontrado, na esquina de uma qualquer rua do mundo, e tiver gostado do que encontrei? Gostar de sentir é a maior de todas as conquistas! O eu conquista-se a par e passo com outros tus que se vão encontrando. É bom ser eu, assim…

Rosa do teu jardim

Chamas-me rosa. Sei que sou, cheia de espinhos, que te fazem sangrar de cada vez que me tentas apanhar. É a beleza que me espanta: a beleza que vês, apesar dos espinhos e que descreves de uma forma… que me parece que falas de outra flor, que não a que esta alma habita. As palavras ficam, na garganta, retidas pela incredulidade que traz a noção de que me vês como parte do teu jardim, que queres trazer para a rua, na mão, na boca, como se dançássemos um tango com a música que só o nosso coração consegue ouvir. E espantas-me, de cada vez que me imagino, Rosa, regada e viçosa, na tua mão, como se o sonho de Primavera que persegui, brotasse do chão, da terra fértil, que foi a tua vontade.

Ensaios de cegueira

Bato à porta, levemente.
A cegueira é um estado de espírito em que, muitas vezes, nos recusamos a olhar para nós próprios. Tento ver para além da matéria, que me é dada a conhecer sensorialmente, e vejo apenas a minha própria venda. A bola, dum cristal puro, que representa a mais interna e valiosa de todas as minhas riquezas, transmite-me a luxuria que eu quero apagar para sempre da memória. 
Bato à porta com mais força.
A cegueira mantém-se, transformando agora aquilo que vejo, naquilo que quero ver. 
A porta torna-se no alvo a abater, ao murro e ao pontapé. Pretendo que sucumba para não ter que lidar com a incapacidade de simplesmente bater e ter que aceitar que as portas só abrem, se houver uma chave certa. 
Não ter que aceitar a própria luxuria, que existe em todos os seres, que existe em mim. Dispo-me com a venda, para não me ver. Vivo e sinto tudo, cega de mim, para não aceitar as próprias limitações. E o corpo pede a alma que lhe faz parte e a alma descaracteriza-se sem o corpo que a a transporta. 
A bola deixa de prever, um futuro.
A porta mantém-se fechada, e eu, desesperada, grito para que me ouçam, para que ouçam, o corpo que se separou da alma, a alma que deixa de fazer sentido perante a porta fechada.
Imagino, e a imaginação alimenta-me a sede e a fome de um corpo.
Cai a venda. Procuro-me. Encontro-me?
Bato à porta, levemente…