Memórias

Memórias da Avó

A verdade é que muito raramente passa um dia em que não me lembro dela!mas agora é Natal… Às vezes pergunto-me de onde me vem este gosto pelo natal , mas desconfio que a ambiguidade que me caracteriza foi ela que ma passou. Porque nem sempre aquilo que se mostra é aquilo que se transporta em actos para os que mais amamos.
Recordo a apanha do musgo como o inicio das festividades: íamos até à serra e retirávamos por entre as rochas os bocadinhos que nos pareciam mais vistosos para compor o chão do presépio. O pai ( ou alguém) fazia o pinheiro entrar em casa e começava o jogo de embelezamento que invariavelmente acabava na brilhante conclusão: o ano passado ficou melhor! Era esta a época do ano em que a “grande sala das coisas brilhantes” era mais utilizada. A árvore com as luzes, a lareira sempre acesa e os milhentos berloques que enfeitavam as estantes enchiam-me os olhos naquela explosão de coisas bonitas a que raramente conseguia aceder de perto nas outras épocas do ano.  A decoração era feita ao som do Roberto Carlos, do Júlio Iglésias e do frei Hermano, que cantavam à desgarrada, alinhados à vez no prato do gira -discos e em disputa com a campainha da porta ou o agudo e elevado som do telefone preto, sediado á entrada da casa ( esta casa parece a casa do primeiro-ministro, o telefone não pára!)

Ela detestava o Natal! Fazia questão de “emburrar” na manhã de 24 para só sorrir na altura da troca de mimos com o Adriano. Ele oferecia-lhe uma caixa de bonbons enorme que ela escondia durante o ano ( e que comia sabe Deus quando, porque de todas as vezes lembro-me de só ter direito a um ou dois e depois a caixa aparecia vazia lá para Junho, na altura da mudança para a praia) e ela oferecia-lhe uma lata de laca enorme, com que ele penteava a franja de que tinha tanto orgulho (  mesmo quando iamos passear para o pinhal, em cima da carrinha de caixa aberta, quando o sr Adriano punha a cabeça de fora, para saber se estavamos bem, o cabelo não mexia nem um centimetro!). O “emburricamento” só passava a 26. Nunca percebi porquê! Não gostava, porque não gostava! Mas todos os anos havia botinhas novas para aquecer os pés e lembro-me da satisfação quando o João, acabado de entrar na universidade em Bragança, recebeu para além das botas de lã para dormir uma enorme manta para se aquecer – todos nós ainda guardamos mantas dessas, às cores – depois deles partirem, não houve mais mantas de lã, nem bonbons, nem latas de laca. Mas ela teimou em emburricar até ao seu último natal, do qual já não teve memória.

Apesar disto, cirandava por entre a nossa alegria, fazendo torradas na lareira e café com leite para adoçar as férias. Por estas alturas  tinhamos permissão para brincar na sala grande. Montava legos, vestia e despia bonecas barbie e até para essas ela teve paciência de criar uns “modelitos”. O candeeiro de cristal brilhava e eu, deitada no sofá, de barriga para cima, ficava a imaginar que o tecto era um enorme salão de baile e o candeeiro, com a luz a trespassa-lo e a transforma-la em pequenos raios de muitas cores, enchia-me a imaginação de muitos, muitos sonhos.

A missa era uma missão minha, porque gostava! Cantava ao menino Jesus e sempre me senti aquecida entre aquelas paredes enquanto o padre Guerreiro cá esteve. Outro, a quem os actos nem sempre abonavam em favor da alma que o habitava! Guardo com saudades os sermões e a capacidade de perdão, depois das palavras más, que ele me ensinou. Ela não era de missas, cá em casa não eramos de missas, recebi este “dom” da minha tia, mas todos se orgulhavam do meu gosto por estar presente.

Foi com ela que aprendi que, muitas vezes, o que nos vai por dentro não é aquilo que mostramos. As nossas zangas com o mundo podem fazer-nos parecer azedas, mas por dentro, um coração mole será para sempre um coração mole, que se derrete com uma simples gargalhada. Ensinou-me sobretudo que não basta olhar para as coisas é preciso ver e perceber o que é que está , realmente, a fazer falta a quem nos está por perto!

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