Memórias de um beijo

Nem sempre é fácil descrevermos aqueles de quem mais gostamos. Não porque não saibamos as suas qualidades mas porque conhecemos os seus defeitos e aos nossos olhos nos parecem sempre menores e sem qualquer importância. Resistimos anos, sempre na mesma frequência, acreditando que um dia a coisa há-de mudar, arranjar-se, permitir aquele encontro que o destino, por qualquer motivo invisível aos nossos olhos, nos parece querer esconder.

Toda a mulher encontra um dia o seu herói

Lá em casa todos temos uma qualquer fixação por relógios. Uns porque mostram o tempo que falta para alguma coisa, outros porque mostram o tempo que passou desde qualquer momento especial, e eu simplesmente porque gosto de os ouvir tocar. O toque são as palavras que ele não pode dizer. São a sua expressão do tempo que é sempre igual dentro de si desde o momento em que lhe deram corda pela primeira vez.

Sou uma fã de relógios, como objecto decorativo. Não sou uma escrava do tempo mas um relógio de bom gosto chama-me sempre a atenção. O bom gosto de alguém consegue comunicar através de um simples relógio. Mas um relógio não chega para definir ninguém assim como o tempo nunca chegará para descrever alguém a quem consideramos herói.

Começa-se por uma simples alteração do ar que nos circunda, e muitas vezes nem damos logo por isso, mas tudo fica muito mais leve ao nosso redor. Depois descobrimos um brilho diferente naquele olhar, uma clareza nos dentes que se descobrem pelo adelgaçar dos labios que se separam autónomos, quando um sorriso basta para nos preencher. E só depois é que chega o resto… e é aqui que reside a diferença, toda a diferença. É no toque perfeito e rítmico como se fosse um relógio, que nos faz dar horas e horas de felicidade , que teima em não nos abandonar. É a doce sensação do encontro, para que vivemos dia após dia, na esperança de um pouco mais daquilo que nos embriaga sem ingerirmos mais nada a não ser momentos. Só momentos.

Sempre que me lembro de ti vem-me à memória aquela canção… lembras-me uma marcha de Lisboa, num desfile singular…quem foi quem disse que o mar dos olhos também sabe a sal…
Bem sei que não me lembro dela nas bandas sonoras da nossa vida, mas já faz tanto tempo que começou esta corrida que às vezes até me esqueço que os verdes anos duram sempre enquanto a tua abelha não se fartar de procurar o meu mel. E o Outono não virá, no lugar da Primavera.

Nem sempre é fácil descrevermos aqueles de quem mais gostamos. Não porque não saibamos as suas qualidades mas porque conhecemos os seus defeitos e aos nossos olhos nos parecem sempre menores e sem qualquer importância… e sabes ? Continuas a ser o meu herói, mesmo que as voltas da vida nem sempre assim o desejem…

Alusões a nada ( com título)

Eu podia escrever uma carta, mas hoje, nem me apetece. Já é tarde e os olhos cansados ( enganei-me nos comprimidos, nada de grave, mas estou cheia de um sono que não devia estar por aqui a esta hora) não deixam ver muito para além daquilo que está em frente aos olhos. Não é que eu não goste assim, até gosto bastante, gosto de distinguir distintamente o que se me apresenta, sem protecções ou capas ou caminhos esguios como as enguias a escapar por entre as algas ( esta não foi uma boa alusão, já sei…) ou então uma serpente no deserto ( sabes que vão deixando S`s à medida que vão fazendo o seu caminho?) . Sou perita nisso e reconheço um encapado a longas distancias…e para isso, nem dos olhos necessito. Então, prevejo que, pelo estilo, cada um dê pouco ou nada de cada vez, até ser impossível continuar sem dizer nada. Ou então, até me podes surpreender, é só tentares…mas com vagar, que o vagão da mercadoria já me passou por cima uma vez…

Tudo aquilo que parece não quereres saber

Deixa-me dizer-te uma coisa, que talvez não saibas, talvez nem queiras saber, mas eu digo te na mesma, que as palavras não me são ainda caras e aqui posso dizer o que eu quiser: as portas não abrem se não lhes colocarmos as mãos nos sítios certos. Desculpa, tinha-me esquecido que este é um lugar supra espacial, onde tudo pode acontecer. Nesses locais é suposto as portas abrirem só porque tu assim o entendes. Só que este também é um local supra espacial meu e digo-te as portas não se abrem só porque tu assim o entendes e muito menos se entretanto as empurraste, negaste a sua importância, fizeste sentir insignificantes e lhes disseste frontalmente que não tinhas qualquer interesse em saber o que existe para lá da porta. Não meu amigo. As portas aqui não se abrem assim. As portas, neste lugar, são como as pessoas, precisam de saber que mesmo depois da humilhação dantesca ainda existe uma mão pronta para colocar a chave na fechadura. De outra forma, as portas, neste meu lugar, manter-se-ao fechadas, imóveis a observar a tua vida a passar, sem cederem um milímetro.

Não sei porquê, mas achei que devias saber isso…

Essa Entente

Há músicas que nos ficam na memória. Mesmo que passem anos sem as ouvirmos, de facto, elas mantêm-se connosco e, de vez em quando, voltam a ocupar-nos o presente, transformando-se numa verdade real que se ouve apenas na nossa cabeça. Muitas vezes já nem as letras saem certeiras, troca-se uma palavra aqui, ou ali, perde.se um sentido mais à frente ou mais atrás, trocam-se estrofes, trazendo para a frente coisas que seriam mais atrás e afastando as primeiras palavras para locais aparentemente perdidos no meio das canções. Mas o importante fica sempre: a melodia, o que nos ficou como o mais relevante e sobretudo os momentos que colamos aos sons e aos tempos em que compartilhámos as músicas com aqueles que não esquecemos…

Tão perto daquela antiga avenida
Passeiam as moças da noite
Que hão-de chamar ao meio das pernas
Os olhares que passam

Uma quer levar-me mas eu não vou ficar

Apenas vou sorrir, passar

Desço ao cais onde o brilho da ponte

Ilumina um bar tão vazio
Mas sei que tão cheio vai ficar
Por mil tragos, avancem

Uns para o meu lado, outros para a frente

Vamos lá rapazes por mil tragos cantar

Eram já três, venham mais duas

As damas ao meio p´ra dança nua
E uma volta a entornar, e outra voz a cantar
Trocam-se os passos no ar, esperem ainda que…

Eram já três, venham mais duas

As damas ao meio p´ra dança nua
E uma volta a entornar, e outra voz a cantar
Trocam-se os passos no ar, esperem ainda que…

Olhos inchados, descanso no cais

À beira de um barco esquecido
Que tal como eu já foi tão forte
Mas feliz só esta noite

Leva-me contigo, dentro de ti

Para depois voltar ao bar
E por mil tragos cantar

Eram já três, venham mais duas

As damas ao meio p´ra dança nua
E uma volta a entornar, e outra voz a cantar
Trocam-se os passos no ar, esperem ainda que…

Eram já três, venham mais duas

As damas ao meio p´ra dança nua
E uma volta a entornar, e outra voz a cantar
Trocam-se os passos no ar, esperem ainda que…

Eram já três, venham mais duas

As damas ao meio p´ra dança nua
E uma volta a entornar, e outra voz a cantar
Trocam-se os passos no ar, esperem ainda que…


Por vezes a nossa vida é um pouco como a história da Branca de Neve, por muito bem intencionados que fossem os anões, iriam deixar a Branca eternamente adormecida dentro do seu vitral, porque não lhe procuraram a causa do adormecimento…