Seguir o instinto

Viam-se muito raramente. Talvez uma vez por semana ou talvez até ainda menos. De qualquer das formas parecia-lhe que eram sempre poucas as vezes. Ele ficava sentado, na mesa do café, em frente à grande janela da montra, à espera. Ela vinha, quase sempre , por volta do mesmo horário. Via-a do outro lado da rua e esperava que subisse a escadaria. Pagava o café e saía. Enveredava pela mesma escadaria, que sabia levá-lo para perto do que esperara toda a semana. Dentro do gabinete conseguia ouvir a voz forte do pai a dar as ultimas instruções. Esperava junto à entrada, perto da secretária para a ver sair e depois dirigia-se ao seu gabinete. Um sorriso, um bom dia, às vezes uma troca insignificante de palavras. Ele achava que seria sempre da proxima vez que ganharia coragem, nem sabia bem para quê…mas seria de uma próxima vez.

Um dia viu-a chegar e achou-a diferente. O ritual, sempre o mesmo. A diferença esteve apenas no que aconteceu à saída. Ele, que raramente saia do gabinete vinha sorridente. Homem, venha daí que lhe pago um café, para comemorar! Vou ser avô!
O mundo dele ruiu sem que ninguém desse por isso. Só conseguia pensar nas oportunidades que tinha desperdiçado e nas palavras que não tinha dito. Enquanto o patrão falava, ele escutava completamente abstraido. E agora? o que iria acontecer a seguir? O futuro pode ser um reflexo pesado do que não se fez…