Reflexão da saudade

Tenho saudades. Tenho saudades e não sei de quê, se isso é possível…?

Sento-me.

O banco está frio e duro e sou eu que tenho que me moldar a ele para me sentir um pouco mais confortável.
O vazio no estômago forma-se como se fosse uma bola e sobe-me pelo peito. (Suspiro) . Sem dúvida, tenho saudades.

Sinto de novo o desconforto do sitio como se me quisesse esquecer. Mas a saudade está lá, sem qualquer dúvida.

Sabes? Podia dizer-te que me arrependi, mas não sou capaz. Mas sou capaz de dizer que me intriga saber se teria sido mais do mesmo ou se teria mudado alguma coisa se tivesse entrado por aquela porta. Intriga-me saber o que de nós dois teria mudado, ou se teria mudado.

Será que se pode ter saudades do que nunca foi? Questiono-me se a saudade, de tão portuguesa, será um sentimento associado à memória ou memorias a que associamos sentimentos que nos fizeram , de algum modo sentir qualquer coisa. Mas eu questiono-me tanto ( já sei, já sei, penso demais …)

Aquilo que senti não foi um sonho ( e ainda assim não tenho certezas do tempo do verbo) . Falar pode ser essencial, a essência de tudo. Para mim é o que se sente em conjunto que faz toda a diferença, e isso há muito que foi perdido. E no entanto sinto saudades.

Nada do que se passou, deduzo, deva ter sido assim tão especial ou diferente do que seria o comum, para ti. E ainda assim, não voltei a sentir nada semelhante depois disso. Tenho um amigo que diz que se as tuas melhores memórias não são de sexo, então estás a perder alguma coisa e eu, na verdade, não faço a mínima ideia do que estará ele a falar…

Esta coisa da memória, deduzo, é trapaceira. A saudade deve acabar por se deixar enganar por qualquer das suas rasteiras e faz chegar ao sentir o que nunca aconteceu senão dentro de nós e não fora. A realidade virtual na sua primeira abordagem ( risos) . Até eu me espanto com as conclusões onde chego ( e vá, chego a algum lado, vês? Se pudesse descrever fielmente o que me apetece, agora deitava-te a língua de fora, e sei que só ao leres a palavra deitar, ficaste entusiasmado, raios te partam!!!)

O sol nasceu no horizonte e vai-se lá saber porquê o desconforto do acento passou. Se calhar, está na hora de regressar ao ninho. Mas até nisso me sinto um pouco deslocada.

Eu sei que casa não foi ao sitio onde regressaste, sei, e sei exactamente o que isso é. Até compreendo que casa seja um lugar dentro de nós ( sou um caracol, relembraste?) mas dentro de mim tu ocupas um espaço enorme ainda e não sei que raio hei-de fazer com tanto de ti, que no fundo e feitas as contas e os contos, é pouco mais que nada.

São horas de voltar a casa. Regresso sempre dentro de mim, quando preciso de matar o vazio que ficou no lugar que preparei para ti.

E vou-me embora, que já tenho o rabo quadrado de tanto pensar nos porquê s …

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Chegar a velha

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Eu não queria ficar velha assim. Era suposto comerem-me os bichos depois de morta e não antes.

Dizes que pisei sem piedade todas as flores que me deste ( não gosto desta palavra, soa a vulgaridade e a quase obrigação). Começo de novo então:

Dizes que pisei sem piedade todas as flores que me ofereceste. Que não soube apreciar a qualidade e raridade das flores que escolheste, uma a uma, só para mim. Pões me nos pés botas assassinas de sensibilidades…

Ainda assim o teu leito é quente. No meu o espaço vai rareando, entre as preocupações e o frio das emoções, que tal como o corpo, se gasta com o tempo.

Não. Não pisei as flores que dizes ter-me oferecido. Só não as encontrei. Porque os nossos olhos se preocupam em livrar-nos primeiro do perigo e só depois em apreciar o prazer.

E ainda assim quero chegar a velha. Comida ou não , de tão velha , que tal como os homens já nem os bichos me queiram…

360º de novidades

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Era um dia igual a tantos outros…Talvez um pouco mais cinzento. O céu, coberto dessa fina colcha cinzenta de algodão, que aconchega o céu à terra e mantém o frio cá em baixo, junto aos ossos que se deslocam por aí, não dava sinais de querer mostrar o sol.

A janela estava entreaberta. Daquela janela já não lhe aparentava vir nenhuma paisagem que lhe oferecesse a novidade necessária para lhe dar aquela vontade que nos faz sair de dentro da nossa própria colcha de retalhos.

Ainda assim saiu. Ali também não caiam novidades do céu.

Mas por que raio serão tão necessárias novidades? Porque raio não nos contentamos nós, com aquilo que de facto existe e faz diferença?

Ouviu o som da água a correr e rezou para que se tivesse lembrado de ligar o aquecimento. Detestava sentir o frio nos ossos, talvez por isso a camada de gordura que lhe ocupou as envolvências não lhe faça já assim tanta diferença.

A silhueta espreita serena por detrás da cortina. Não estava maior, nem mais pequeno. Ela gostava assim. Gostava que não lhe trouxesse grandes novidades, que não estivesse constantemente a alterar-lhe as sensações, transformando o bom em mau e o mau em bom. Não sabia se teria sido essa a grande diferença entre todos os outros, mas seria esse de facto um valor que lhe acrescentara muito à vida que ele lhe trouxe. A calma. A paz. A certeza que de se houvessem novidades não seriam no espectro dos 360º que a obrigassem a virar a vida do avesso, de novo. Outra vez talvez fosse demais.

Via-o a mover-se suavamente enquanto a água lhe escorria pelo cabelo, pingando e encontrando caminho por entre as formas do corpo até ao chão. A música que ligara logo ao abrir dos olhos, parecia cantar-lhe exactamente aquilo que ela tinha tantas vezes dificuldade em dizer.

Olhou-se ao espelho e sorriu. Abriu e fechou os olhos. A água mantinha o seu soar continuo fazendo escorrer os momentos, enchendo a pouco e pouco o vazio das memórias. A silhueta já lá não estava, onde ela sempre pensou que a iria encontrar, quando se levantasse, todas as manhãs. A música continuava a cantar a saudade que sentia, mas que não lhe diria jamais. A paz, a calma, a certeza de não haverem 360º de novidades, foi ele encontrar noutro leito, tapado com qualquer outra colcha de retalhos.

A paisagem da janela, já não é nova, os dias cinzentos dão lugar aos dias de sol, e o sol transforma a água que escorre para o chão em novas nuvens. O mundo avança, e as curvas que vejo por trás da cortina são as minhas próprias curvas, encontrando lugar, a cada novo dia, para manter viva a chama da vontade de ficar, em casa, comigo, sendo feliz com a calma e a paz de não haverem novidades.http___signatures.mylivesignature.com_54492_91_22A35459EADF0434888F9396BD2FD4E1