Encomenda postal ( ou o extravio da coisa)

Falta-me qualquer coisa e eu não sei o que é.

Ficam-me na memória certas frases, certos gestos, e os cheiros – definitivamente os cheiros ficam-me na memória.

Certo dia disseram-me que pensava demais. Curioso, foi a primeira vez que mo disseram e ficou-me enganchado como se se tratasse de um sobretudo pendurado num cabide. Até aí sempre me tinham convencido que era uma cabeça no ar e nunca pensava o suficiente e com a seriedade devida, nas coisas ( eis mais uma prova de que a vida é de uma grande ironia- agora passam a vida a dizer-me que levo as coisas a sério demais) .
Talvez o sobretudo do excesso de pensamentos me ajude a proteger da tal seriedade que levei uma vida inteira à procura e agora que a encontrei, também não serve.

Falta-me qualquer coisa e eu não sei o que é.

Sempre, em todos e cada momento assim é. Guardo as memórias  ( das coisas) de como as senti, mas sou incapaz de perceber onde é que ponho (as coisas ) e porque é que as pus ali e não noutro qualquer lugar.

Não deve haver muito tempo que deixei de me preocupar, as coisas, se se perderem hão-de ser encontradas,se não por mim por outro alguém que lhes dará o devido valor, o que merecem, ou então não.

Definitivamente os cheiros ficam-me na memória. As vozes também. Já algum de vocês sonhou com cheiros e vozes? São assim os meus sonhos. Eu sei de ante mão quem vai entrar a seguir no palco dos meus sonhos porque lhe cheiro a proximidade ou lhe ouço a voz. Mas desisti de querer saber o que vai acontecer no palco da vida por incapacidade de compreender o mundo , como funciona, na crueza do como são as coisas.

Percebo muito de sonhos e pelos vistos nada da vida. Penso demais e de forma diferente dos demais e cada vez é mais assim, criando-me um fosso de incompreensão: não consigo entender o porquê e o para quê de se fazerem certas coisas, mas se calhar é porque penso demais.

… e mesmo assim continua a faltar-me qualquer coisa ou alguém que era suposto ter chegado, mas nunca veio, como uma encomenda perdida que se enganou no posto dos correios. Fiquei sem correspondência e talvez seja isso que me falta, a outra metade de mim, que sei (acho?acredito?será que existe?) dever andar por aí mas que ainda nunca a encontrei. Porque se tivesse encontrado com certeza não nos iríamos separar ou esquecer. Não acham?   Mas mesmo assim ficam-me na memória certas frases, certos gestos, os cheiros e tudo aquilo que senti. Só, sem correspondência.