360º de novidades

losing_hope_by_devuushka-d4xlc02

Era um dia igual a tantos outros…Talvez um pouco mais cinzento. O céu, coberto dessa fina colcha cinzenta de algodão, que aconchega o céu à terra e mantém o frio cá em baixo, junto aos ossos que se deslocam por aí, não dava sinais de querer mostrar o sol.

A janela estava entreaberta. Daquela janela já não lhe aparentava vir nenhuma paisagem que lhe oferecesse a novidade necessária para lhe dar aquela vontade que nos faz sair de dentro da nossa própria colcha de retalhos.

Ainda assim saiu. Ali também não caiam novidades do céu.

Mas por que raio serão tão necessárias novidades? Porque raio não nos contentamos nós, com aquilo que de facto existe e faz diferença?

Ouviu o som da água a correr e rezou para que se tivesse lembrado de ligar o aquecimento. Detestava sentir o frio nos ossos, talvez por isso a camada de gordura que lhe ocupou as envolvências não lhe faça já assim tanta diferença.

A silhueta espreita serena por detrás da cortina. Não estava maior, nem mais pequeno. Ela gostava assim. Gostava que não lhe trouxesse grandes novidades, que não estivesse constantemente a alterar-lhe as sensações, transformando o bom em mau e o mau em bom. Não sabia se teria sido essa a grande diferença entre todos os outros, mas seria esse de facto um valor que lhe acrescentara muito à vida que ele lhe trouxe. A calma. A paz. A certeza que de se houvessem novidades não seriam no espectro dos 360º que a obrigassem a virar a vida do avesso, de novo. Outra vez talvez fosse demais.

Via-o a mover-se suavamente enquanto a água lhe escorria pelo cabelo, pingando e encontrando caminho por entre as formas do corpo até ao chão. A música que ligara logo ao abrir dos olhos, parecia cantar-lhe exactamente aquilo que ela tinha tantas vezes dificuldade em dizer.

Olhou-se ao espelho e sorriu. Abriu e fechou os olhos. A água mantinha o seu soar continuo fazendo escorrer os momentos, enchendo a pouco e pouco o vazio das memórias. A silhueta já lá não estava, onde ela sempre pensou que a iria encontrar, quando se levantasse, todas as manhãs. A música continuava a cantar a saudade que sentia, mas que não lhe diria jamais. A paz, a calma, a certeza de não haverem 360º de novidades, foi ele encontrar noutro leito, tapado com qualquer outra colcha de retalhos.

A paisagem da janela, já não é nova, os dias cinzentos dão lugar aos dias de sol, e o sol transforma a água que escorre para o chão em novas nuvens. O mundo avança, e as curvas que vejo por trás da cortina são as minhas próprias curvas, encontrando lugar, a cada novo dia, para manter viva a chama da vontade de ficar, em casa, comigo, sendo feliz com a calma e a paz de não haverem novidades.http___signatures.mylivesignature.com_54492_91_22A35459EADF0434888F9396BD2FD4E1