Sonhos e solidões…

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Digo – te :  o caminho já se faz de forma mais leve, que já há pouco nesta vida que não tenha visto ou que me chame especialmente a atenção. Digo-o e sei que é verdade. Senão, repara:

  Houve um tempo em que me pareceu que viver sem ti seria impensável e ainda assim continuei. Houve um tempo em que pensei que viver contigo seria impossível ( talvez tenha sido antes de tudo, assim) . Houve um tempo em que achei que te iria perder e recusei-me a aceitar…

Há já muito tempo que não sei em que tempo vivo agora. Neste tempo que vivo, em que me deixou de fazer sentido o sonho (como quando, na madrugada, abres os olhos e vês os primeiros raios de luz iluminarem-te um espaço a que chamas teu por te ser tão familiar e pensas: ah! Foi só um sonho)não sei que lugar ocupas. Nem sei sequer se terás um lugar oculto ou se, simplesmente deixaste vazio o lugar.

Foi só um sonho. Talvez seja este o tempo em que estamos agora. O tempo em que me desapaixono da memória, como alguém que acorda na madrugada e percebe que os últimos anos foram apenas um viver dentro de um sonho.

Recorre-me a lembrança do caminho ( esse caminho que jurei/juraste não me deixares fazer sozinha, ainda mais uma vez – é só, mais um pouco, só, mais um pouco ) O choro das crianças com fome, a morte a plantar-se nas beiras das estradas e a fazer-me adeus como quem diz: também tu cá calharás ( o tal pássaro meu amigo voa agora para me proteger da escuridão) também tu cá calharás. Eu sei que tem razão, a morte, e ainda assim continuo firme no meu caminho.

As crianças já não choram com fome, a beira da estrada mudou, a morte deixou-me em paz

Acordei do sonho e não te vi. Não te vejo. Talvez não existas, talvez sejas só memória ou talvez nem isso. Somos nada, tal como a morte me queria fazer crer. A diferença é que agora já não tenho medo. Não tenho medo da morte. Não tenho medo de te perder. Porque nunca perdemos aquilo que não foi nosso, o que podemos é perder-nos a nós.

…e afinal não me perdi. Também não me reencontrei porque não sou a mesma. Não perdi o caminho porque aprendi, melhor, a resistir. Ganhei experiência, de novo, e sobretudo ganhei uma nova noção, a noção do que jamais quero ser.

Já sei quem sou. De ti tenho apenas a noção que não sei se existes, realmente, ou se serás apenas mais um produto pré-fabricado para aquecer um coração gelado…

Este que só se aquece em presença humana. Sonhos e solidões não aquecem corações…