Por entre o fumo

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E ainda assim, já não espero nada. Sempre que se esquece um sonho há um anjo que desespera.

Para onde irei agora? Tenho um espaço, aberto, onde posso abrir as asas mas o que farei sem o teu sonho?

O cigarro brilha mesmo em frente aos meus olhos. Sabe-me a fumo. Há algum tempo que todos os cigarros me sabem a fumo e eu não sei se sou eu que queimo por dentro ou se é o cigarro que não passa de um vício. Preferia mil vezes companhia do que o cigarro que se consome na ânsia da satisfação. Ainda assim não me convenço a deixá-los. Consomem-me por dentro tal como os consumo, e o metal queimado a cada maço não me dá tréguas. Cheiro a fumo por dentro e por fora.

E não te decides. E os dias passam e eu fico aqui, à espera que o desespero dê lugar a um novo sonho, a um sonho a qualquer sonho

Apago o cigarro, esbate-se a pequena luz no meio das cinzas de mais um que se consumiu. A noite mantêm as estrelas. O ar que corre arrefece. Mais uma noite, mais uma semana, mais um mês. E eu que pareço nunca sair daqui…