Pelas minhas regras

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Acho que já houve um tempo em que toda eu era certezas.

Talvez o melhor tempo da vida seja aquele em que julgamos a vida como cheia de certezas

Tinha a certeza que a vida correria, dentro de umas sapatilhas confortáveis, com o fôlego suficiente para fazer uma milha ou duas ou uma légua ou palmilhar os caminhos distantes que imaginei descobrir com o fruto da sorte de uma vida boa. Que tempos felizes, aqueles em que ainda temos como certas todas as esperanças que o sonho nos sopra.

Depois aprendemos a perder.

Acho que só quando perdemos definitivamente o primeiro sonho , tomamos a noção que nem sempre tudo será com a certeza que pensámos ser

A primeira perda é quase sempre substituível. Porque nos sobra fôlego. Porque a capacidade de adaptação nos define humanos ou animais superiores se assim o consentirmos. E adaptamos-nos e reformulamos.

Depois perdemos de novo. A segunda perda é basal. É o confirmar que a certeza é uma coisa tão frágil como a própria vida e que não podemos focar os objectivos em fragilidades. Então aprendemos. Aprendemos que por mais longo que seja o caminho ele tem que ser percorrido. Por mais dolorosa que seja a perda ela tem que ser ultrapassada e por mais que sigas sozinha só tu tens o poder de te fazer parar.

Por vezes paras. Baixas os braços cansada, exausta da incompreensão da justiça que não vês no destino. Paras para fazer balanços, para andar, seguir ou para sair. Às vezes nem vês caminhos, segues porque sim, porque a vida o exige e porque entretanto foste criando ramos na árvore que nasce da tua própria criação da vida e essa exige-te a ti, de ti.

Dizem que só se percebe a vida depois que se vê com os olhos do amor. Eu digo que há tanto tipo de amor e todos válidos. Todos reais. Só que a vida vai criando calo, defesas. De repente vês-te escondida nos buracos que a tua árvore criou e tu és a árvore e a árvore não vive sem ti, são indistintas e é ela que te agarra ao chão.

Dizias-me que não se pode voltar atrás e eu concordo. Mas não se anda para a frente quando, do pouco que poderia ter nascido da semente que foi plantada, se aproveitou para cavar buracos e secar raízes inúteis. Construímos a casa pelo tecto, e ela desfez-se em tábuas estéreis e duras que me partiram as pernas.

O que mais gosto nas perdas é o que me ensinam. De cada vez que perco aprendo a deixar ir. Aumento o desapego. Não, não é falta de amor, é relatividade. Saber que basta respirar para existir e que mesmo sabendo que melhor pode vir ter a noção que o pior também cá chega. Aprendi a arriscar com sentido, a navegar à vista. Guardo as intuições como sagradas e aprendi com a lei das ciências que qualquer hipótese só é verdadeira quando comprovada. Tudo o resto são suposições. Bonitas teorias de conspiração universal, positivas ou não, que alimentam os sonhos tão necessários à criatividade mas irrisórias quando se pensa em continuar, determinada a sobreviver…

E é para isso que cá ando. Se nos entre tantos de tudo isto conseguir que sobre algo para viver, viverei, mas porque me foi concedido e não por ter arrancado do chão a flor só porque a percebi bonita e egoísta a pensei unicamente destinada a mim. Houve um tempo em que julguei que as palavras abriam as portas. Depois percebi que não. Pensei depois que talvez fossem as ações mas nunca pareciam ser suficientes. Hoje sei que o destino, é provavelmente a maior de todas as provas de sobrevivência. Mas se puder viver nos entre tantos viverei. Pelas minhas regras.