Ana Lee

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               love for tea time

Qualquer hora poderia ser hora do chá. Bastava que a vontade lhe batesse à porta como se as papilas lhe pedissem um líquido com sabor a natureza.
Quente ou frio. Dependia sempre da altura em que se repetiria o ritual, nas folhas do calendário. Não era a hora que lhe determinaria a temperatura.
Na verdade, esqueci-me grotescamente para que horas teria sido combinado o chá, desta vez ( diz-se que quem conta um conto acrescenta-lhe um ponto, mas não me deve ter ficado no ouvido esta parte da historia) .Lembro-me perfeitamente que era suposto estar frio ( o chá).  Esperara em vão pela companhia , que não chegou. Bebeu o chá em tragos lentos, para que lhe ficasse guardado na memória o sabor. Não seria para esquecer. Na verdade a companhia, presente ou não, pouco lhe importava, era o sabor e a sua memória que lhe interessava, muito mais do que o resto. 
A cerimónia do chá era querida pelo ritual em si, pela beleza que emana da mesa posta, das iguarias, das possíveis conversas que podiam acompanhar todo o momento. Mas conversas pressupõe companhia e por isso mentia. Era-lhe importante a companhia, mas isso jamais sairia da sua boca de forma explicita e consciente.
Conta quem me contou, que foi por isso que começou as longas conversas de solidão. Fala, no seu momento de chá, como se trocasse culturas, saberes e prazeres com o imaginário, que se lhe tornou bem mais querido do que qualquer presença real. Quente ou frio, pouco importa ( falamos do chá, sempre, e nunca do tempo que se faz, lá fora) depende da altura do calendário e das papilas, que ainda lhe comandam as escolhas na hora do chá.

Nem sempre o que nos dizem interessa. Interessa sempre muito mais o que fazemos com o que nos dizem, porque é na interpretação do que sentimos que se mantém o acento tónico da nossa realidade. ( e todas as historias deveriam ter, sempre, algo suficientemente importante, para nos fazer pensar) .

GNR – Ana Lee: http://youtu.be/fBEmzEWiyLU