Ausências

” Não há tempo morto. Nem há falta de tempo. Há o tempo e a ausência de tempo. O tempo é vida. A ausência de tempo é morte.
Nós temos um intervalo entre nascer e morrer. Só um. Só um intervalo. Só um tempo. Só uma vida.
Não somos obrigados a abraçá-la. Podemos até não ligar nenhuma. Mas é mais inteligente ser-se egoísta e cobarde e forreta com o tempo, gastando o mínimo possível em coisas que nos incomodam.
 Quem ama aprende logo como é pouco o tempo.”

 
 
MEC in Como é linda a puta da Vida
 
 
 
A morte é a ausência de vida. Li isto em algum lado, não me lembro onde. Poderia acrescentar que vida será então a ausência de morte? Não me parece. Ao fim de todos estes anos ainda me incomoda encarar a morte de frente: o inevitável, a única coisa com que não vale a pena lutar muito. Foi um dia triste e uma noite triste. Porque longe se foi um sorriso inesquecível , porque perto me ficou nas mãos o sabor a perda, sem saber como, nem porquê. Há dias assim, longos demais, que não permitem parar para se fazer o que se gosta, estar com quem se quer. É a vida, ou a ausência de morte em nós, mas convivendo tempo demais e perto demais com ela.
 
Sinto há algum tempo que caminho para o virar, para a curva que me mostrará o novo caminho. Mas por mais que caminhe a curva mantém-se à mesma distância, como uma miragem, embora eu continue a andar, sempre, mais e mais…
 
Ontem foi um dia triste, foi uma noite triste. Dizem que tristeza também é vida, mas se vida é ausência de morte, onde colocar tanto vazio nos dias? 

Das quedas…

Lá por casa a segurança sempre foi uma obsessão. Coisas alucinadas do género de nunca viajarmos todos no mesmo avião ( porque se caísse não morreríamos todos de uma vez), fechar todas as portas, as luzes, desligar todas as tomadas eléctricas, a torneira de segurança da água e do gás sempre que nos ausentamos por mais de 3 dias, para evitar acidentes na nossa ausência e outra parafernália de pormenores que, de tantos, faço questão de me esquecer de alguns para não ficar ainda mais paranóica. É engraçado perceber que noutras famílias também existiam alguns cuidados. Sou sabedora dos segredos dos cofres, das partes que me cabem aqui e ali, dos lugares nos confins da terra onde existe alguma coisa que possa vir a ser necessária e as minhas contas pessoais eram todas em conjunto com os meus pais.
Quando a empresa da minha vida faliu, valeu-me a educação que tive e o hábito arreigado ( embora despreocupado) de poupar. Lembrei-me de esconder o que sobrava dos consumidores inatos e gastei o que restou a tentar tapar os buracos que ficaram. Foram os novos buracos, aos quais era absolutamente alheia, provavelmente por demasiada inocência da minha parte, que me “jogaram ao chão”. Foi necessário aprender uma nova ordem, aprender a sobreviver do nada, voltar atrás como se voltasse a ter 15 anos. A diferença é que já não tinha! Voltar às rotinas das casas dos pais não é fácil, principalmente quando já se tem filhos. Mas a grande luta foi de facto com o sistema de alarmes, essa modernice, que quando de lá saí não existia. Os meus horários sempre foram um problema, e mexeram de tal forma com os hábitos daquela família que a solução acabou por ser desliga-lo ou então passava a vida a falar com a menina da central de alarmes ( é que me deu para não conseguir decorar o segredo do alarme, vá-se lá saber porquê!) entrar a horas em que é suposto estar tudo a dormir e sair a horas em que ainda toda a gente dorme não é uma forma de vida fácil de impor a um casal que fez toda a sua vida num horário de gente “normal” e com rotinas extremas, controladas ao minuto. Cheguei a ter que falar com a menina dos alarmes às 4 da manhã, porque tive a péssima ideia de fazer um assalto à minha própria cozinha a essa hora, e não me conseguia lembrar da porcaria do segredo para desactivar aquela “balhana”. A isto é que se deve chamar estar presa na própria casa. Felizmente o pai A. lá se lembrou que desligar aquilo enquanto a casa está habitada era capaz de ser a melhor solução. Hoje já não faço assaltos à cozinha, já não como de noite, controlo a minha alimentação com o rigor e cuidado necessários de quem quer perder 10kg. E mais do que me habituar aos meus pais, já foram eles que tiveram que se reabituar a mim: aos dias em que entro muda e saio calada, porque a falta de segurança em que caiu a minha vida é um assunto sério, tão sério quanto a preocupação de não estarmos todos no mesmo avião, à mesma hora, se ele se decidir a cair…

Vidas ao compasso

Não sabia há quanto tempo estaria naquela casa. Os dias eram todos iguais e por isso tanto faria se fossem apenas dias, semanas, meses ou anos. Os dias eram todos iguais.  Mas não era isso que mais a irritava. Não.  Tinha chegado ali à espera de um trabalho, uma identidade, uma vida. A que lhe disseram que poderia vir a ter se deixasse tudo para trás e começasse de novo.

O que mais lhe irritava era aquela companheira. Sempre calada. Sempre igual, semana após semana. Passava os dias agarrada ao ponto cruz. Parava para dormir ou para comer. Ainda suspeitou que fosse surda ou muda mas já a ouvira falar com as senhoras dos serviços. Sempre em segredo. Não era difícil adivinhar o motivo porque ali estava. Já lhe vira as cicatrizes que a repugnaram e a fizeram olhar para outro lado. Sabia o que aquilo era. Não precisava de as ver.

Tantos dias e nada de novo sobre a sua nova vida irritavam-na. Tanto tempo perdido. E a companheira que não largava o ponto cruz.
Houve lá tu por acaso sabes para que serve tudo isto ?
Nada
Tu ouves-me ao menos? 
Nada outra vez
Não tens nada que me possas dizer?
Ela olhou-a, como se fosse a primeira vez que a visse e quase em surdina ouviu-a dizer

A vida é uma breve passagem, se erramos o atalho à saída levamos mais de metade dela a encontrar um outro atalho para o caminho certo. Podemos não chegar a encontrar nada, portanto mais vale bastarmo-nos a nós próprias sem esperar que nos dêem seja o que for. Enquanto esperamos,  gastamos a única coisa que realmente temos. É para isso que serve isto.  Para termos consciência disso.

Tal como começara, assim terminou. Posou os olhos no seu ponto cruz e continuou o seu silêncio profundo.

Mas ela nunca mais  esqueceu aquelas palavras. Nem quando lhe arranjaram o novo emprego,  nem depois quando começou a sua vida nova…

Voltando à pneumática…

Passaram 3 meses desde que me decidi a voltar. Com algumas ideias daqui, dali ou de acolá, lá me vou conseguindo aguentar. Perdi 5 kg entretanto mas, para mim, continuam sem haver grandes diferenças. O que juntando ao horário do mês dá…birra, mau feitio e a p=)//&$/%$”$#&” da depressão a bater à porta. E pronto é isto…

 
São só mais 20 dias e entra outro horário. Entretanto já devo ter novidades em relação ao que fazer com a morada ( se me aguento ou não me aguento com a mudança) e como gerir o novo ano escolar. Misturando tudo com o problema dos pneus, dá provavelmente resto zero. Como sempre!