Brincar com coisas sérias

Na vida há coisas de que gostamos outras que nem por isso. Isto aplica-se a todas as vertentes da “coisa”.
Não gosto de picar crianças, mas às vezes tem mesmo que ser. Começo quase sempre com um ar sério e comprometido, especialmente quando a birra começou antes de eu chegar ( exceptuam-se os bebés, que requerem outras estratégias).
São os pais, em muitos dos casos, que transportam as suas ansiedades e não lidam bem com a ansiedade dos meninos ( quem gosta de ver os seus sofrer que atire a primeira pedra aos que também lhes apetece fazer birra quando sabem que os meninos vão ser picados. Mas tudo tem os seus limites!) .
Frases como “não dói nada” e “um homem não chora” tiram-me literalmente do sério e fazem-me respirar fundo 3456 vezes ou mais… dói! e um homem/mulher chora, tem que chorar, deve chorar! As tentativas de “branquear” a situação e não permitir sentir, são muitas vezes agravantes e fazem com que a colaboração se demore mais a conseguir, porque implica faltar à verdade, e as crianças sabem isso, sentem-no.
Começo com um ar sério e comprometido e digo logo o que se pode e não se pode fazer: pode-se chorar e gritar, à vontade, o que não se pode é mexer o local que vai ser picado.
Ainda assim as birras continuam “não quero”, “tenho medo”. Chegamos ao local desejado: “tens medo de quê? ” e é muitas vezes, não o quê mas o porquê, que me diz mais sobre o que vem a seguir.  Os porquês das coisas permitem diminuir os medos.
Chegada a esta fase na maioria das situações os pais são já uma figura apenas presente, a conversa decorre no mundo da imaginação da criança que está à minha frente e tenta combinar comigo a melhor forma que tenho para lhe fazer mal ( sim, vou picá-la e vou magoá-la, mas tenho que ter o seu consentimento, sou uma estranha). Comparamos desconfortos. Costumo utilizar o teste da picada do mosquito para testar o limite da dor ( as agulhas são borboletas e ficamos na realidade dos insectos) se a picada do mosquito for normalmente motivo de dor a picada que vou dar vai doer de qualquer das formas, se não for, estamos ambos “safos .
Cada criança é um mundo e esta linha já me deu milhares de situações diferentes para lidar. Há aqueles com quem é impossível negociar, muitas vezes porque são os próprios pais que não permitem, não entendem a necessidade e acabamos por terminar em “agarramentos” e contenções excessivas que eu detesto ( gritarias, forças desmedidas, cansaço e sensação de objectivo não cumprido) e há os diferentes resultados da diplomacia. No outro dia mais uma situação caricata… ” não quero, dói, tenho medo” medo de quê? ” não sei” Ok, então medo porquê? ” porque vou ficar com um buraco! ( risos, muitos risos, ele fica perplexo – eu aqui cheio de medo do buraco e tu ris-te?) quantas pessoas já viste sair do hospital? levam buracos? o teu irmão ficou com algum buraco quando fez análises? ( olhar perplexo novamente, mas diferente, como quem diz ” mas por que é que eu não me lembrei que este medo não tem lógica nenhuma???”) E então conta-me lá, dói-te quando te picam os mosquitos? não! ( olhar de incrédulo,” `tas totó? desde quando é que isso dói?” ) Ok estamos safos!
Geralmente o acto da picadela em si tem que ser no meio da conversa, entre os nãos e os só mais um bocadinho…desta vez foi diferente porque por entre os é agora,não, depois, agora, não, piquei ( olhar incrédulo…é só isto???) doeu? não !!!!???? O teste do mosquito não falha!

É o medo. O medo é que nos faz não querer enfrentar certas situações. Geralmente porque sabemos que não vão ser momentos bons. Mas a vida não é só feita de momentos bons, e tal como se deve ensinar o que é felicidade, é necessário ensinar como lidar com a dor, a ansiedade e os momentos maus, que , invariavelmente vamos ter que enfrentar. A protecção é boa até determinado limite, deixa de ser quando fazemos crer aos nossos filhos, que nada de mal lhes pode acontecer porque vamos estar sempre lá para os defender. Vamos estar, queremos estar, vamos apoiá-los como podemos e como sabemos, mas uma coisa é o que temos mais certo: não vai correr sempre tudo bem, e eles também têm que aprender a lidar com isso… digo eu… até agora a taxa de sucesso destas estratégias tem sido maior do que a de insucesso. Quando deixar de funcionar, muda-se porque a experiência é mesmo isso, aprender para melhorar e se necessário: mudar…