Vidas ao compasso

Não sabia há quanto tempo estaria naquela casa. Os dias eram todos iguais e por isso tanto faria se fossem apenas dias, semanas, meses ou anos. Os dias eram todos iguais.  Mas não era isso que mais a irritava. Não.  Tinha chegado ali à espera de um trabalho, uma identidade, uma vida. A que lhe disseram que poderia vir a ter se deixasse tudo para trás e começasse de novo.

O que mais lhe irritava era aquela companheira. Sempre calada. Sempre igual, semana após semana. Passava os dias agarrada ao ponto cruz. Parava para dormir ou para comer. Ainda suspeitou que fosse surda ou muda mas já a ouvira falar com as senhoras dos serviços. Sempre em segredo. Não era difícil adivinhar o motivo porque ali estava. Já lhe vira as cicatrizes que a repugnaram e a fizeram olhar para outro lado. Sabia o que aquilo era. Não precisava de as ver.

Tantos dias e nada de novo sobre a sua nova vida irritavam-na. Tanto tempo perdido. E a companheira que não largava o ponto cruz.
Houve lá tu por acaso sabes para que serve tudo isto ?
Nada
Tu ouves-me ao menos? 
Nada outra vez
Não tens nada que me possas dizer?
Ela olhou-a, como se fosse a primeira vez que a visse e quase em surdina ouviu-a dizer

A vida é uma breve passagem, se erramos o atalho à saída levamos mais de metade dela a encontrar um outro atalho para o caminho certo. Podemos não chegar a encontrar nada, portanto mais vale bastarmo-nos a nós próprias sem esperar que nos dêem seja o que for. Enquanto esperamos,  gastamos a única coisa que realmente temos. É para isso que serve isto.  Para termos consciência disso.

Tal como começara, assim terminou. Posou os olhos no seu ponto cruz e continuou o seu silêncio profundo.

Mas ela nunca mais  esqueceu aquelas palavras. Nem quando lhe arranjaram o novo emprego,  nem depois quando começou a sua vida nova…