Das quedas…

Lá por casa a segurança sempre foi uma obsessão. Coisas alucinadas do género de nunca viajarmos todos no mesmo avião ( porque se caísse não morreríamos todos de uma vez), fechar todas as portas, as luzes, desligar todas as tomadas eléctricas, a torneira de segurança da água e do gás sempre que nos ausentamos por mais de 3 dias, para evitar acidentes na nossa ausência e outra parafernália de pormenores que, de tantos, faço questão de me esquecer de alguns para não ficar ainda mais paranóica. É engraçado perceber que noutras famílias também existiam alguns cuidados. Sou sabedora dos segredos dos cofres, das partes que me cabem aqui e ali, dos lugares nos confins da terra onde existe alguma coisa que possa vir a ser necessária e as minhas contas pessoais eram todas em conjunto com os meus pais.
Quando a empresa da minha vida faliu, valeu-me a educação que tive e o hábito arreigado ( embora despreocupado) de poupar. Lembrei-me de esconder o que sobrava dos consumidores inatos e gastei o que restou a tentar tapar os buracos que ficaram. Foram os novos buracos, aos quais era absolutamente alheia, provavelmente por demasiada inocência da minha parte, que me “jogaram ao chão”. Foi necessário aprender uma nova ordem, aprender a sobreviver do nada, voltar atrás como se voltasse a ter 15 anos. A diferença é que já não tinha! Voltar às rotinas das casas dos pais não é fácil, principalmente quando já se tem filhos. Mas a grande luta foi de facto com o sistema de alarmes, essa modernice, que quando de lá saí não existia. Os meus horários sempre foram um problema, e mexeram de tal forma com os hábitos daquela família que a solução acabou por ser desliga-lo ou então passava a vida a falar com a menina da central de alarmes ( é que me deu para não conseguir decorar o segredo do alarme, vá-se lá saber porquê!) entrar a horas em que é suposto estar tudo a dormir e sair a horas em que ainda toda a gente dorme não é uma forma de vida fácil de impor a um casal que fez toda a sua vida num horário de gente “normal” e com rotinas extremas, controladas ao minuto. Cheguei a ter que falar com a menina dos alarmes às 4 da manhã, porque tive a péssima ideia de fazer um assalto à minha própria cozinha a essa hora, e não me conseguia lembrar da porcaria do segredo para desactivar aquela “balhana”. A isto é que se deve chamar estar presa na própria casa. Felizmente o pai A. lá se lembrou que desligar aquilo enquanto a casa está habitada era capaz de ser a melhor solução. Hoje já não faço assaltos à cozinha, já não como de noite, controlo a minha alimentação com o rigor e cuidado necessários de quem quer perder 10kg. E mais do que me habituar aos meus pais, já foram eles que tiveram que se reabituar a mim: aos dias em que entro muda e saio calada, porque a falta de segurança em que caiu a minha vida é um assunto sério, tão sério quanto a preocupação de não estarmos todos no mesmo avião, à mesma hora, se ele se decidir a cair…