palavras

Eles

Escreveu na mão o que queria dizer para que não esquecesse. Queria ser honesta. Queria não se esquecer de todas as necessidades de dizer. Queria que ele soubesse que não se importava do que se havia passado e que gostava, gostava muito do que ele era e de como era. Gostava sobretudo de como era e do que sentia quando estava com ele. Tinha um testamento de coisas para dizer e tinha receio de não conseguir.
Enquanto limpava a cinza da lareira e juntava as brasas que sobravam do calor da noite,  pensava nas mil e uma possiblidades de lho dizer. Era-lhe difícil ( nem sabia bem porquê) expressar-se, e por isso escrevera na mão. 
Olhou o relógio. Era tarde.  Ele saira zangado, muito zangado. Dissera-lhe que não queria, que não iria perdoar,  mas fora no calor da discussão.  No fundo, o que queria era que tivesse sido ele a dizer-lhe, a mostrar,  para que não fosse enredada nas conversas mesquinhas de quem não sabia o que se passava por trás das portas da morada que era a deles.  Os dois, só, deveriam ter confiado no que os unia.
Não queria que ele fosse de outra forma,  queria que fosse exactamente como é mas sobretudo que confiasse nela. Mesmo quando parecia não lhe dar importância,  era a opinião dele a que mais fazia eco na cabeça e no coração.  Queria que ele ficasse velho ao lado dela, para que se rissem os dois de todas as loucuras que haviam de fazer até lá chegar.
Ele continuava ausente. Perdida nos pensamentos abriu as mãos e repetiu em voz alta o que lá estava escrito

Quero ficar.Quero estar ao teu lado até quando não me queiras aqui, especialmente nessas alturas, que é quando mais precisas.  Sem ti o meu sorriso não tem metade do brilho e os dias não têm metade da cor. Os meus segredos são os teus segredos e não quero ter segredos para ti…

A porta . O barulho das campainhas.  A silhueta que ela conhecia melhor que ninguém.  Ele estivera sempre ali.

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