Coisas lindas

Ando com ele para trás e para a frente há muito mais tempo do que o desejaria. Não porque nos faça mal a um ou a outro mas porque, geralmente quando gosto de uma coisa prefiro consumos rápidos. Talvez esteja diferente, talvez seja apenas a tão falada ” idade” ou talvez seja o meu tempo que, dividido por muito mais solicitações ou preocupações se torna curto para o ler a falar connosco.

Perguntaram-me um destes dias se estava a gostar dele. Habituados que estão a ver-me mudar as cores das capas como quem muda de turnos, à espera da resposta, a conclusão foi imediata: ” não deves estar a gostar ou já o terias lido” . Na verdade, a reacção após a pergunta foi a minha reacção comum quando não sei o que hei-de responder : fiquei parada ( a pensar ) mas a resposta veio “se nunca leste nenhum, não leias este primeiro”. E eis como se pode ter uma opinião errada quando nos precipitamos a fazer juízos de valor.
A primeira parte é sobre o amor e a eminente preocupação de o perder. Perder alguém que se ama é de tudo, o pior que nos pode acontecer, aquilo de que mais medo temos. Que me perdoe, mas não gosto muito de falar sobre isso, e a ansiedade espelhada nas letras que se vão derramando pelas páginas em branco, fez-me pensar que o desespero lhe pudesse ter feito perder o jeito. Mas não! Passa-se a fase má e ele volta, tal como sempre o li, a perder-se em pormenores e pensamentos sobre coisas em que a maior parte das pessoas não pensa ou pelo menos não diz que pensa ou não perde tempo a pensar. E é disso que gosto tanto! De me sentir identificada naqueles pensamentos, é passar do riso ao “espera lá, como é que ele chegou a este conclusão? onde é que foi que me perdi? onde é que não consegui seguir o raciocínio?”

Estou a gostar, bastante, apesar da critica não ter sido a melhor, quando saiu. Ainda não acabei, e não me importo, gosto de ir apreciando com calma as crónicas, uma a uma, conforme me vão aparecendo, página a página, sem pressas…

Parabéns Miguel! A p?=)(?)(/&#$&#” da tua vida é mesmo linda de se ler!

 Distrairmo-nos é batermos o pé. Naquela teimosia de dizer: ” Enquanto cá estou, escuso de fazer o que só faria sentido se ninguém morresse, a começar por mim”. Escrever é uma maneira de fugir que não se consegue só através do pensamento. É esquisito: é o acto de escrever palavras que faz com que outras sejam puxadas até, a certa altura, ficarmos surpreendidos com o que acabámos de dizer.
Cada palavra não é uma ponte, porque as pontes são coisas apenas justificadas pelas coisas ( obviamente mais importantes do que elas) que ligam. É como as cerejas: cada cereja é uma delícia e a diferença entre não comer nenhuma e comer uma é, digamos, 7 mil unidades de ” assim sim”, enquanto a diferença entre comer uma ou duas não é mais do que 5 mil.
Não chega lembrar nem querer: é preciso inventar o que a nossa alma nos pede, que não existe feito neste mundo – precisamente para que as almas trabalhem nisso muito tempo. E não se ocupem tanto com o que não interessa.
Em suma, queremos sempre, pelo menos, três coisas: mais, melhor e mais bonito. Há outras que também queremos – mais depressa, mais conforme o que queríamos, mais eterno, mais fixo e , ao mesmo tempo, mais constantemente surpreendente -, mas nada disso existe na vida, em estado bruto, pronto para consumir.
É preciso passar pelos livros – por tudo o que não existe; pelo que está exagerado; pelo que é mais fingido do que vivido – para poder dar valor ao (muito) pouco que deveras existe.

da crónica O mundo incompleto em COMO é linda a puta da vida de Miguel Esteves Cardoso