Na casa dos telegramas

… e o que eu gostava de te contar o que sentia? Mais a ti do que a qualquer outra pessoa a quem já o tivesse feito. As tuas respostas têm um sabor diferente

Nem sei porquê,  as tuas respostas sabem-me a querer contar mais, a querer dizer mais a querer esmifrar o sentimento até que ele se derrame, líquido,  pelos espaços dentro e fora dos ecrãs que me devolvem a ti

Tenho saudades das campainhas.  Da porta estreita por onde entravas, acompanhado de uma suave toada que eu esperava ser a tua, que trazia o gozo matreiro de quem me quer levar a um lugar só nosso.

Foi nessa altura que entrou alguém na nossa cumplicidade? Foi nessa altura que copiaste as minhas palavras para as levares para outra porta? Foi nessa altura que duvidaste de tudo o que fazias por mim? …foi mais tarde, só mais tarde que soube que as tuas palavras não seriam só para mim, replicando os momentos que julgava unicos por corpos tão diferentes de mim…

Dividir-te demasiadas vezes, desfez a forma como te via,desfez-me, e transferi-te para uma morada onde não estarias, um cemiterio de prazeres,  onde replicaria os sonhos sem resposta e as noites de calor em claro, só com a memória de ti.

Ainda aguardo as campainhas, guardo na memória a ansiedade com que era feliz, antes de se transformar em peso, morto pela desilusão. 

Mas ainda sonho: as tuas respostas, as tuas perguntas e conduzo muitas vezes,  talvez demasiadas, o pensamento, para o nosso cubículo onde dançavamos, colados, desejando eu que o mundo parasse, em silêncio para não termos que sair dali…

Gosto de escrever diários.  Não por saudosismo, mas porque me arranjo neles e é esse tambem o espaço que arranjo para ti, dentro de mim.  Se te dissesse as vezes que entras e sais de dentro do meu pensamento julgavas-te a ti próprio ladrão.  Ladrão de memória, que le levas a concentração e a integração pelo espaço fora, até me conseguir no abraço de que nunca quis sair.
Escrevo diários para me convencer a mim própria que há mais que tu na minha vida, mas não haveria vida ( esta vida) em mim, se não houvesse tu, assim, na minha vida .

Confiança!

O céu esta manhã apresentava-se com umas excelentes combinações de roxo. Mas que raio de cor para se definir um céu da manhã??!! Eu explico. Gosto das combinações da cor vermelha com o azul ( aliás gosto de combinações de cores, especialmente se estas estiverem muito próximas das cores primárias) e o azul do céu ou das nuvens, quando o sol nasce ou se põe, adquire aquela tonalidade forte que o sol tem a essa hora, misturando primeiro os tons mais fortes, que vão aclarando até que o astro rei se levante, e vá ficando cada vez mais claro e luminoso. Essa mistura inicia-se num roxo que vai passando a rosa depois a alaranjado e finalmente com as cores que definimos como as “normais”. É por isso que o nascer e o por do sol são para mim as mais bonitas horas do dia e é por isso que, embora me custe a abandonar o ninho, fazê-lo a tempo e horas acaba por ser uma óptima forma de começar o dia: porque tenho tempo e disponibilidade para me encantar com estas pequenas coisas que tornam o meu dia mais bonito logo de inicio.

Gosto de chegar com tempo, embora nem sempre me seja fácil, gosto de preparar as possibilidades, gosto de saber ao que vou antes de começar. Deve ser por isso que as minhas malas, carteiras ou o que lhes quiserem chamar andam sempre a abarrotar de coisas que aparentemente não servem para coisa nenhuma. Mas são essas “coisas” que me dão a segurança de ter o que preciso numa situação de “aperto”. É por isso que agora, ao ultimar as mudanças, me deparo com uma “colecção” de objectos enorme e que vou ter que , de alguma forma, seleccionar, arrumar, algumas dispensar e outras reutilizar. Mas é bom reencontrar-me com muita coisa que não encontrava à tanto tempo. Transmite-me a noção de reconhecimento, de segurança e sobretudo de pertença. Tal como é bom, de manhã, reencontrar num céu as cores que tanto gosto. Porque mesmo repetindo todas as manhãs o mesmo caminho, vendo todas as manhãs o nascer do sol, não há vez nenhuma que não lhe encontre um pormenor diferente, uma nova tonalidade aqui e ali, uma nova forma de olhar para o que me é familiar, mas ao mesmo sempre novo e tão querido com a confiança que o dia também me sorrirá!

Dias cinzentos

Os dias cinzentos são sempre os piores e raramente têm muito que ver com os sol. São os dias em que se descobre que os sonhos ficaram todos para trás, que não se faz nada do que se esperava fazer por esta altura e que por muita volta que se dê ao pensamento não se encontra grandes saídas ( viáveis) para se transformar a forma como se ficou. O trabalho não nos leva a lado nenhum e é feito com esforço de escravatura, o tempo não chega para se estar com os filhos como se devia, já para não falar das contas constantes que se fazem para arranjar e rearranjar orçamentos. É nesta altura que me questiono qual foi a curva que fiz para a direcção errada. Por mais voltas que dê ao pensamento não consigo identificar uma ( foram tantas) que acabo por me certificar que é tempo perdido estar constantemente a voltar para trás.
 Até aqui, tudo bem.
Conforma-se e enforma-se e no fundo nem é isso que me preocupa. O que me preocupa é a falta de perspectivas, a falta de oportunidades, a falta de alternativas. Às vezes sinto que a minha vida é como a politica em Portugal: por mais que se queiram arranjar alternativas e soluções há-de vir sempre alguém ou alguma coisa estragar tudo.  Poderão dizer-me que a vida é mesmo assim , que nunca se tem aquilo que se quer, que é difícil…pois, obrigada pela informação, isso eu já sei! A alternativa pelos vistos é habituarmo-nos. Habituamo-nos a trabalhar 240 horas por mês. Habituamo-nos a despender apenas 30 minutos a uma hora por dia aos filhos, habituamo-nos com a ideia de que há muita coisa que nunca iremos ver nem ouvir. E eu habituei-me! Habituei-me que há alguns sonhos que se podem transformar nos piores pesadelos, quando te exigem sucesso.
 Estes são os meus dias cinzentos, depois tenho outros. Nos outros dias, agradeço por poder trabalhar as 240 horas que me permitem ir vivendo e levando os meus filhos onde querem, fazer-lhes alguns “mimos” que todos gostamos de fazer, mantê-los vestidos e calçados e aparentemente saudáveis e felizes. Nos outros dias, agradeço por ter resistido e aguentado 5 anos de uma depressão difícil, de ter aguentado as constantes pressões internas para não resistir ao sofrimento ( sim, uma depressão é, muito mais que se imagina, uma forma de sofrimento) de me ter transformado numa pedra, que não permite que os dias cinzentos que ainda batem à porta, tenham a mesma força e a mesma influência que já chegaram a ter. Nos dias cinzentos, lembro-me que vai passar, que tudo passa, que não preciso mostrar a ninguém que sou feliz, nem preciso ser melhor ou pior. Só preciso ser eu, e aguentar, porque no dia a seguir, se bem calhar, já verei as coisas diferentes, sem ambições, sem grandes sonhos, sem objectivos. Só com a vontade de viver.” Esperar o melhor mas estar sempre preparada para o pior”. Aprendi que só isto já me basta, como qualquer outro objectivo…