Organizar as ideias…

Setembro é sempre um mês “desgraçado”. Desgraçado porque a juntar aos turnos que normalmente faço para sustentar a minha vida, acresce a turbulência (boa) do novo ano escolar e dos opções a tomar, que influenciarão a vida dos meus pelo próximo ano. Este ano a juntar a esta festa que não é de vindima, mas que podia ser ( porque até ao lavar dos cestos, tudo conta) tenho ainda a “simples” tarefa de me “livrar” do último restolho da vida antiga e transformá-lo em vida nova, ou seja, estou finalmente de mudanças para a casa que verá o meu futuro…

Com tanta coisa para gerir e organizar, tanta tralha que não sei onde se gerou ( poderia jurar que a tralha aparece por geração espontânea) por mais que tente é-me quase impossível não ter os cabelos praticamente todos em pé, por estes dias… na verdade tem-me valido o espaço, que já vou conseguindo novamente dar, a coisas de que gosto mesmo muito. Dêem-me concertos, museus, espectáculos e actividades que mantenham viva a minha necessidade de conhecimento e eu serei feliz! 

Já conhecia a Byfurcação não sei bem de onde ( provavelmente do facebook ou de algum comentário de alguma amiga) e já tinha prometido a mim mesma que não me escapariam estes espectáculos. A ideia de peças de teatro em espaços históricos e culturais ( que temos tantos e tão bonitos e às vezes mal aproveitados) é daquelas que eu poderia dizer ” esta ideia podia ter sido minha”, mas não foi e ainda bem porque se fosse provavelmente não passava de uma ideia! Pois foram os vouchers do SAPO que me deram essa oportunidade e eu não desperdicei! Duas semanas seguidas, dois espectáculos pela Byfurcação: A volta ao mundo em 80 dias – para os miúdos – e Pedro e Inês – para mim.

Confesso que estava com um pouco de medo da peça dos miúdos: Já que o meu Afonso não é rapaz de estar quieto muito tempo, sem uma sala propriamente dita, o medo de que fugisse ” atrás de uma borboleta” em vez de assistir à peça era muito. Mas até nisso o espectáculo está bem montado ( encenado que se diz??!!) e eles andam às voltas, nunca quietos, num jardim, atrás dos actores que captam muito sábia e facilmente o interesse do público. Adoraram, todos, e eu também. Melhor ainda foi ter ficado com mais um livro para ler nas noites de Inverno e com muita coisa nova para visitar, já que estar no espaço do Museu Nacional de História Natural e Ciência ( a casa do “tio Rex”) nos aguçou a curiosidade!

Mas bom, mesmo muito, muito bom, foi assistir ao Pedro e Inês, na Quinta da Regaleira. Os jardins, a iluminação do espectáculo, o espectáculo em si, o ambiente que se cria, com os cenários improvisados e naturais e claro! a história da “nossa” Inês de Castro, a rainha de Portugal, coroada depois de morta!

Talvez ser uma apaixonada pelas histórias por trás da história me tenha ajudado a conhecer melhor esta “lenda” e talvez a minha paixão por terras de Coimbra também tenha ajudado, não sei… Mas uma vez que me pediram, aqui vai um resumo do que supostamente aconteceu a este casal de namorados em 1300 e troca o passo…:

D. Pedro, filho de D. Afonso IV e Beatriz de Castela, como todos os futuros reis, casar-se -ia com a filha de nobre de sangue real que mais favorecesse o Reino de Portugal. Casou-se primeiro com Branca de Castela, que viria a repudiar por incapacidade física e mental. Depois seria escolhida D. Constança, também de Castela e com ela, no séquito das aias apresentou-se D. Inês de Castro. Como o coração não conhece razões de estado, Pedro e Inês apaixonaram-se e nem as  manobras da princesa D. Constança, nem os filhos D. Luís que viria a falecer uma semana depois do parto e D. Fernando, nem tão pouco as preocupações de D. Afonso IV em relação a esta paixão os conseguiram separar.

 D. Afonso manda exiliar D. Inês para Trás-os-Montes mas  “não separou os apaixonados que comunicavam entre si por cartas levadas e trazidas secretamente. Quem fazia o serviço de correio,  eram os almocreves que transportavam mercadorias de cidade para cidade, atravessando coutos e concelhos, segundo ordem dos burgueses seus patrões. Os almocreves levavam consigo as cartas de D. Pedro para Inês. Foi assim que o amor de Pedro e Inês, longe de perturbar-se ou amortecer, se tornou mais sólido e capaz de superar quaisquer obstáculos e adversidades. “

D. Pedro acabou por conseguir trazer D. Inês para Coimbra e viveram felizes em Santa Clara, depois da morte de parto de D. Constança. Tiveram 4 filhos, Pedro e Inês,   e D. Afonso IV, com receio de possíveis guerras de sucessão entre seus netos e de influências futuras de Castela no reino, aproveitando uma caçada de D. Pedro, que o fez ausentar-se de Coimbra, cede às pressões dos conselheiros e manda matar Inês, em 1355, decapitando-a.

D. Pedro cega de raiva e com o apoio das gentes do norte inicia uma guerra civil a que  põe termo logo de inicio por intervenção de D. Beatriz, sua mãe. Mas não esquece e depois da morte de D. Afonso IV, é coroado rei (em 1357) e  dá caça aos assassinos da sua Inês, mantando-os em público e organizando um banquete em honra da matança.

D. Inês foi transladada para  o mosteiro de Alcobaça, depois, para  um dos dois túmulos que D. Pedro mandara construir ( um para si outro para Inês) . Diz-se que o cortejo foi enorme, sempre com o povo a chorar e a aclamar a rainha e que ao chegar a Alcobaça , Pedro que supostamente teria casado com ela em 1354, declarou-a rainha, obrigando os nobres à cerimónia do beija mão ( blheccc)…

Reza a história que Pedro foi um bom rei, justo, que gostava de dar de comer a quem tinha fome. Fernão Lopes define D. Pedro como um rei ” justiceiro, generoso, folgazão, amado pelo povo e de grande popularidade. A sua morte o povo dizia que «ou não havia de ter nascido, ou nunca havia de morrer». “

Curioso e irónico, no meio de tudo isto é que D. Fernando, o neto que D. Afonso IV queria proteger, ter querido ser herdeiro do trono de Castela o que nos custou guerras e quase a perda de independência. D. Fernando foi o ultimo da sua dinastia, mas a que se seguiu, a Dinastia de Avis, levou ainda o cunho de D. Pedro, sendo que D. João I era o único filho que restou, ilegítimo, sem ser do sangue de D. Inês, filho de uma tal Teresa Lourenço, da qual pouco ou nada se sabe … giro, não??!!!