Aguentar

Os dias em que reservo para mim própria o direito de fazer coisas que gosto são sempre dias bons.  Hoje foi um desses dias. Apesar do trabalho ter sido difícil, de ter sacrificado um pouco a vida familiar, obriguei-me a ir assistir às conversas imaginárias do Helder Costa, porque sim, porque achei que iria gostar!
  As conversas imaginárias são conversas impossíveis entre personagens históricas. Para a comemoração dos 25 anos da nossa Biblioteca Municipal estiveram à conversa Humberto Delgado, Salazar e Mariana Alcoforado.

Chegou-me à ideia, dentre as conversas, de como a suposta crise nos pode limitar a capacidade de reflectir.  É para isso que serve a arte. Para nos fazer reflectir, pensar sobre as coisas, virar os assuntos do avesso e transferi-los para o nosso dia a dia. Talvez todos nós tenhamos um pouco de cada uma daquelas figuras, talvez não.  O que diz muito sobre a nossa sociedade é que, ainda se consigam encontrar muitas daquelas características ali postas a descoberto, nos nossos dias ( afinal o Salazar caiu da cadeira, mas deixou marcas!).  A democratização trouxe-nos o acesso à instrução,  mas a que preço?  O que aprendemos nós e os nossos filhos, nas escolas? Seremos realmente livres de escolher as nossas opções ou limitamo-nos a seguir, por receio, aquilo que dizem ser o melhor para nós?
O que dantes era para mim uma escolha, hoje faço-o à custa de algum esforço pessoal e percebo o quanto a crise me limitou a capacidade de assistir e partilhar estes momentos que me deixam tão satisfeita e me fazem pensar… e penso na minha geração, que em vez de assumir o seu papel numa sociedade activa, é obrigada a sair para fora do país ou se vê preocupada na sua luta pela sobrevivência não podendo assim ter voz ou papel, ou não querendo, numa perpetuação daquela que já foi uma estratégia passada: manter a ignorância para não tocar na liderança.  E assim nos vão governando, todos, desde há várias décadas…

De cada vez que me permito estes devaneios tomo a decisão de não me deixar mergulhar de novo no marasmo. Ir, estar, reflectir, pensar, ouvir e depois interpretar usando isso em meu favor nas escolhas que faço para mim e para o futuro da minha família.  E ser feliz.

Obrigado ao grupo de teatro ao luar que nos brindou com uma surpresa divertida lembrando-me daquilo que já sabia: a importância do humor na nossa vida. Os textos do Helder Costa, são sempre “aqueles textos” não fosse o sr um grândolense…

E já me sinto com força para mais.  Venha a “escravatura” da contenção que com arte, eu aguento!

Das estações da vida

Seriam talvez as ultimas folhas a cair. Depois disso ficaria nua, despida para aguentar as amarguras do Inverno.
Seriam talvez as últimas horas de sol. Depois disso apenas o candeeiro acenderia a vida que se prolonga pelas artérias pouco movimentadas do povoado.
Ela estaria, permaneceria ao movimento,  à luz que acende e aoaga sob o jugo do tempo. Haveria de revestir-se de novo com o vestido recortado, com as aplicações em locais diferentes, é certo, mas o vestido, esse vestido  seria para despir quando chegasse novamente a hora . Depois haveriam de vir outros, diferentes,aparentemente iguais. 

Promessas

Depois começo, e eu sei que tu sabes que o meu começo é sempre num amanhã que se prolonga pela infinidade dos anos ( tantos que, se queres que te seja sincera, já lhe perdi a noção). Os meninos cresceram? Diz-me que sim, que mereço essa notícia depois da distância a que nos dispuseram os mapas da vida.
Por aqui a vida vive-se no rengue-rengue de quem promete mas nunca cumpre. Mas esta promessa vou ter que cumprir. Depois começo.  É que a estrada foi longa e prometi a mim mesma que um dia havia de chegar. Mesmo que seja com um espinho ( ou o que for) crivado no pé. Mas hei-de estar lá, de pé em frente ao altar a adorar o santo para lhe agradecer o caminho que fiz para conseguir chegar… e depois começo! 

Conduções

Gosto de conduzir, sempre gostei. Houve até alturas em que me julguei uma óptima condutora. Depois, andei às voltas dentro de um carro ( sobrevivi ) a seguir chumbaram-me a condução e eu fiquei a um passo de um sonho.
Ainda conduzo embora convencida que sou uma condutora que dá para o gasto. Conduzo suficientemente bem para ser para mim um anti-stress andar com um carro nas mãos. Não me incomoda trabalhar a 30 e tal kilometros do lugar onde resido, não me importo de percorrer meio país para me encontrar com aqueles com quem me apetece estar.
Ir num dia do Alentejo a Coimbra e vir no outro, dar um saltinho a Aveiro entretanto ( desta vez conduzida e com muito orgulho) pode parecer um exagero para muitos mas para mim é a simples prova de que estou viva ( ainda ) . Sentar-me a uma mesa e falar de mim, da vida, com quem estou uma ou duas ( três numa grande loucura) vezes por ano e ainda assim parecer que foi ontem que terminamos a conversa e que sempre que falo me entendem, é sinal que todos os kilometros percorridos seriam poucos. É sinal que a amizade não tem tempos nem distâncias e podem passar mais 20 anos e ainda assim parecer que foi ontem a última conversa. E nunca faltar assunto nem coisas a aprender.

Alicia Keys – Brand New Me