Sigur

Gostava que estivesses lá, que tivesses visto como é diferente ( esqueço-me que deves saber como é) . É nos rostos que sentimos a diferença, sobretudo. Na calma, nos movimentos ordeiros.

Estou saturada de gritos, cansada… das insuficiências de quem nada lhes basta, quando me sei bastar com tão pouco de bom

Saí de chapéu enterrado até às orelhas para o meio da chuva como se estivesse um dia de sol, caminhei com a mesma segurança como se do céu nenhuma fúria viesse, tal como as minhas parecem ter serenado, embora o caminho me pareça ainda nebuloso. Não me importo, já não me importo…

O sonhar de lareira acesa, que por acaso hoje lhe faltou o fósforo, mas que sei que daqui para a frente estará sempre ali, a certeza da flor acabada de colocar  ( a primeira de muitas, espero, de pétalas branca e roxa que achei que parecia um enxerto do nosso sonho) , o silêncio do sono das crianças, a paz de um quarto que parece ter nascido para mim e o piano, sempre o piano…

e não me perguntes porquê, mas o piano traz-me sempre à memória as tuas mãos, serenas e certeiras como quem sabe sempre aquilo que quer fazer…

 

 

 

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Heritage

Das heranças, prefiro sempre aquelas que se cravam no corpo, como os sinais de vida que se perpetuam. Tenho algumas por aí espalhadas, por esse monte de vida que carrego para todo o lado.

A vida é a mais pura forma de magia, sabes? Como por magia, multiplicam-se as células ao acaso, quando se encontram e como por magia, num conjunto de acasos que só elas entendem, misturam-se, multiplicam-se, comunicam e vão atravessando os tempos, perpetuando os erros e os acertos

Há as que nos vêm inscritas e aquelas que inscrevemos com as nossas próprias passadas. Nem certas nem erradas, são as nossas, tanto as passadas, como as inscrições trazidas. De todas, as que mais gosto são as que estão marcadas. Na pele, para ficarem guardadas e serem relembradas.

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Era pequena, tão pequena que aos olhos só lhe chegava a luz das cinzas que aqueciam o fundo da bilha, cheia de pequenos orifícios por onde se ouvia o sal estoirar.
Tudo o resto ficava acima do seu campo de visão, como se fosse um outro lugar, uma outra dimensão das coisas.

Queres castanhas?

Acenou com a cabeça, sem dizer uma palavra.  Preferia concentrar-se na luz, no cheiro que invadia o ar e no som do sal a estoirar.

Toma são doze, uma por cada mês do ano.

Naquele canto já não se vendem castanhas, já não cheira a Outono. Até a paisagem mudou. Se fosse hoje, olharia-o de frente, pagaria as suas próprias castanhas e agradeceria todos os momentos que a recordação deixou. Quem lhe  saberia dizer, então, que há momentos na vida que não se esquecem e que por muito que se queira jamais se repetirão…