Das profundezas da terra

Num rio profundo, desses que correm imersos na terra sem que jamais se dê por eles, boiava uma flor. Pequena, frágil de pétalas de seda, viajou km, corrente após corrente, no redemoinho das fúrias, que só a água consegue prever. A superfície foi uma miragem possível, numa fenda de nascente que só a terra consegue fazer correr… e logo a mão do homem, prendendo a beleza volátil, lhe aperta a frescura que trazia ainda, tirando-a da água onde se afogava, largando-a na terra, a secar ao vento…

A mão que te dá a mão, nem sempre te dá caminho, o rio que te afoga aos poucos, nem sempre te tira o ar. Nos círculos que se adivinham nos céus, há uma estrela brilhante, por onde se guiavam os caminhantes do tempo. Chama-se polar, a estrela, e dá-te o norte sempre que perdes o teu sul. Uma entre muitas, descoberta no céu, jamais te deixará desviar o caminho.

Era uma flor que secou, na terra, sozinha, depois de viajar km entre as correntes sem rumo das águas revoltas nas profundezas da terra—

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Prelúdio de Natal

Acho que é suposto, por esta altura do ano, fazerem-se balanços, rectrospectivas, planos listas e coiso e tal. A vida ensinou-me que, coiso e tal bago de uva, o melhor é dar graças por o que temos, todos os dias.” Retrospectivando”: prefiro sempre o futuro, num regresso a um converter de fraquezas em forças.

Já trouxe as luzinhas e os pisca-piscas cá para casa, a lareira já vai aquecendo o ambiente e, na verdade, o que desejo neste natal é mais de mim própria. Mais tempo para mim e para os meus, mais tempo para o que realmente importa. Jantares estilo piquenique na sala, brincadeiras à nova era, cada um com a sua tecnologia mas sempre todos juntos, parvoíces e gargalhadas… e depois disto e do atraso para o jantar, feito com “tanta vontade” e pressa pelas horas tardias, ainda ouvir: ” mãe, eu não gosto muito disto e além disso não tenho muita fome… Vale sempre pela intenção

Tenho saudades da neve. Tenho saudades da brancura que se aconchega, suave, nas mãos, como que enviada, caída e solta das asas dos anjos que, enquanto brincam de enfeitar o céu, nos enviam a paz das suas penas suaves. Tenho saudades da alvura do horizonte, de costas voltadas à má sorte, cobrindo todo o meu contentamento.

… e batem leve, levemente, como quem chama por mim,

será chuva? será gente?

Tenho saudades da bebida quente, num fim de tarde de cansaço feliz, da alegria ingénua de quem se lança em voo, esperando um colchão de fofa massa coberto e se enfarta com chão branco e húmido e ainda assim se ri.

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…E chegámos ao Natal. Época de festejos, luzinhas, paz, amor e alegria. Adoro decorações de natal, luzinhas, pisca-pisca, árvores, músicas natalícias, as delícias culinárias, a sensação de paz ( mesmo que só de aparência) e sobretudo o esforço que a maioria das pessoas faz para se manter ( ao menos nesta altura) minimamente solidária. Talvez seja este esforço que admito ver que me amoleça o coração, ou talvez sejam apenas as boas recordações que trago na memória, destes tempos, que me fazem sempre baixar a guarda e tentar ver o melhor que existe em tudo o que me rodeia. Adoro presépios embora não me entrem em casa à muito tempo. Recordo o musgo, as figuras que colocava e o tempo que demorava a observá-las e a tentar dar-lhes vidas, na minha imaginação. Provavelmente ainda não seja este ano que o presépio regresse a minha casa, mas a árvore não vai faltar, nem que seja mesmo na véspera, se não houver antes tempo para a por de pé. Porque mais do que tudo na vida, o que conta é a motivação e a vontade de chegar onde se quer chegar.

e por falar em músicas e pisca-pisca… este moço está sempre no meu top