Das profundezas da terra

Num rio profundo, desses que correm imersos na terra sem que jamais se dê por eles, boiava uma flor. Pequena, frágil de pétalas de seda, viajou km, corrente após corrente, no redemoinho das fúrias, que só a água consegue prever. A superfície foi uma miragem possível, numa fenda de nascente que só a terra consegue fazer correr… e logo a mão do homem, prendendo a beleza volátil, lhe aperta a frescura que trazia ainda, tirando-a da água onde se afogava, largando-a na terra, a secar ao vento…

A mão que te dá a mão, nem sempre te dá caminho, o rio que te afoga aos poucos, nem sempre te tira o ar. Nos círculos que se adivinham nos céus, há uma estrela brilhante, por onde se guiavam os caminhantes do tempo. Chama-se polar, a estrela, e dá-te o norte sempre que perdes o teu sul. Uma entre muitas, descoberta no céu, jamais te deixará desviar o caminho.

Era uma flor que secou, na terra, sozinha, depois de viajar km entre as correntes sem rumo das águas revoltas nas profundezas da terra—