Pássaros

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Éramos como pássaros voando nos céus de um sol, ainda há pouco nascidos. Éramos bandos de liberdade pintando os céus roubados, aos dias quentes. Somos menos agora, por entre os arrozais de verde esperança, de que não se acabe a água em que se semeia o Verão.

Éramos gente, somos agora cidadãos de um mundo estranho, de estranhos que não se tocam,

ainda assim conseguimos ser.

O quê?

ouvi a melodia que carpida a solidão. Já não sei quem fomos, se soube quem somos.

Pratico a gratidão dos dias frios, agradecendo o calor que me permanece no corpo e pouco mais de acende em nós agora:

ainda tento…

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Pedra e fogo

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Às vezes a luz incide do lado errado. Em estado liquido, os raios parecem ondular, mas no fundo é a pedra que conta. Marca um lugar de onde não sairá se não lhe puserem a mão. O sol vai e vem ao sabor do tempo, a água sobe e desce pelo mandamento da lua, mas a pedra aguarda imóvel. Talvez o desgaste lhe faça moça, talvez a água a vá diminuindo, mas permanece.

Somos assim, por vezes, na calma e na tempestade que nos aguarda. Tu és pedra, eu sou água ou luz ou simples areia, assente.

…E iluminamos o mundo

E iludimos as tempestades

E permanecemos

com dor, com alma, lágrimas e ingratidão

suor, trabalho e peso,

permanecemos, iluminando o mundo

pedra,  água, areia e luz

iluminamos o mundo

iludimos tempestades

à espera

de união, de mão

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O caminho de casa

Não tenho medo.  Perdi o medo quando abri as mãos para te abrir a porta.  Procurei-o para me salvar. As capas do medo são a melhor protecção, ajudam-nos a manter a invisibilidade que nos salva do chão.  Mas já o tinha perdido. Com ele foram-se os restos do que sobrou. Fiquei com nada.

Na fechadura,  as limalhas rasgaram-me as mãos.   A porta ficou aberta e o frio entrou. Prencheu todos os vazios,  todos os buracos, todos os cantos. 

Todos os dias que me sobram são gastos a fechar a porta, a acender o lume, a preparar o meu ambiente,  mas o frio não se vai embora. Nem consigo encontrar o medo. Perdi tudo o que era eu e pedes-me perdão…

A vida é uma comédia de enganos e ao bobo da corte cabe apanhar a dor para a guardar só para si enquanto diverte os demais com as suas próprias figuras. Eu sou o bobo do meu próprio castelo onde guardo as tempestades que fazem companhia ao frio.

Tranco a porta.

Se não te responderem, espreita o buraco da fechadura. Os olhos também enganam, mas preparam-te para o que aí vem.
Não feches os olhos, mesmo que que nada vejas e jamais apagues as luzes mesmo que te ordenem. Há nevoeiros que vêm de dentro. Há tempestades que duram para sempre. Há ilhas onde nunca se consegue chegar. Há frios que persistem mesmo quando chegamos a casa.

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