O caminho de casa

Não tenho medo.  Perdi o medo quando abri as mãos para te abrir a porta.  Procurei-o para me salvar. As capas do medo são a melhor protecção, ajudam-nos a manter a invisibilidade que nos salva do chão.  Mas já o tinha perdido. Com ele foram-se os restos do que sobrou. Fiquei com nada.

Na fechadura,  as limalhas rasgaram-me as mãos.   A porta ficou aberta e o frio entrou. Prencheu todos os vazios,  todos os buracos, todos os cantos. 

Todos os dias que me sobram são gastos a fechar a porta, a acender o lume, a preparar o meu ambiente,  mas o frio não se vai embora. Nem consigo encontrar o medo. Perdi tudo o que era eu e pedes-me perdão…

A vida é uma comédia de enganos e ao bobo da corte cabe apanhar a dor para a guardar só para si enquanto diverte os demais com as suas próprias figuras. Eu sou o bobo do meu próprio castelo onde guardo as tempestades que fazem companhia ao frio.

Tranco a porta.

Se não te responderem, espreita o buraco da fechadura. Os olhos também enganam, mas preparam-te para o que aí vem.
Não feches os olhos, mesmo que que nada vejas e jamais apagues as luzes mesmo que te ordenem. Há nevoeiros que vêm de dentro. Há tempestades que duram para sempre. Há ilhas onde nunca se consegue chegar. Há frios que persistem mesmo quando chegamos a casa.