Dos Demónios

Abriu a gaveta, passou os olhos pelo seu interior. Uma série de tralha passou-lhe pela frente sem nada lhe suscitar em demasia  o interesse. Parecia-lhe que ao fundo estava exactamente o que queria mas a dificuldade em alcançar foi demasiada e desistiu. Procurava há imenso tempo e não chegou a encontrar. Fechou a gaveta e respirou fundo. Os olhos fechados, parecera-lhe uma eternidade. O ar a entrar, no suspiro, e o expirar talvez um século, tudo numa fracção de segundos. Desistiu. Virou costas e decidiu fazer o que teria de ser feito, com ou sem as imagens que a ajudariam a reconstituir o caminho. Saiu. Tinha uma vaga ideia onde ficava o destino. O cheiro a sol e a mar que se entranharam na pele naquele Verão, reconstruiram-lhe memórias, farrapos de si, que se haviam perdido nas consequências dos excessos. Quando abusamos, seja do que for, desfiamos os nós do tempo em excesso de velocidade podendo infrigir, assim, todas as regras de segurança. O caos provém do desassossego, a tragédia de equações erradas.

O cheiro a sol e a mar, restauram-lhe a identidade. Depois foi só pôr os pés ao caminho. Já ali estivera, já conhecia muitas das pedras do caminho, das curvas da estrada, das sebes a descascar com as intempéries , das árvores, que mais altas agora, desprendiam desajeitadamente os seus braços ao vento. Era aquela a porta. Subiu o degrau do alpendre e abriu o portão. A porta mantinha-se intacta. Olha por cima do ombro, no receio, ainda, que a tivessem seguido. A visão devolvia-lhe apenas a segurança do conhecido. Um novo suspiro como que a encher, com o ar, a coragem que lhe aumentou em grandeza, o peito. Ambos os pés firmes no chão. Rodou a maçaneta.

 

Se nunca enfrentares os teus maiores demónios, um dia eles irão acabar por te devorar…