Perder

hoje foi dia de nova consulta e por isso nova viagem à capital. Disto o bom foi ter cumprido uma promessa. Gosto de cumprir o que prometo mesmo que isso me exija esforço ou sacrifício. Não foi o caso hoje, quem prometeu esforçar-se e cumpriu merece uma promessa cumprida e viajar de comboio até é uma coisa que faço com gosto. O pior foi o que demorou menos e desmoronou o pouco que parecia ter construído nestes meses. Dizem-me que estou melhor mas não me sinto assim. Talvez transpareça o esforço, o enorme esforço que faço para não me perder, mas já me perdi há muito tempo e não há maneira de me reencontrar. Sofro agora o que não sofri quando era mais nova porque deixei de acreditar em muita coisa, demasiada talvez. não me lembro quando aconteceu, mas pelos vistos aconteceu. Coisas simples que parecem banais deixaram de me fazer sentido e na verdade já pouco me importam as reflexões que provavelmente faria sobre vários assuntos há alguns anos atrás. Mas esforço-me todos os dias para não transmitir a minha descrença, que quem se esforça sempre alcançará alguma coisa boa e acredito que isso acontecerá aos outros, não a mim. Estamos neste ponto então. Na linha isoeléctrica de quem tem muita coisa por resolver, que inventa continuamente diversões construtivas e educativas para crianças que necessitam de reforço positivo sempre. Perco-me de mim porque não tenho rumo certo. As responsabilidades mantém-me activa e pouco mais. Tal como numa campanha eleitoral tipicamente portuguesa não há alternativas viáveis, fico-me pelo mau ou pelo menos mau e como uma boa alentejana que sou vou andando. Falta-me perspectiva, falta-me encantamento, falta-me entusiasmo, de resto tenho tudo e não desejo mais nada. Talvez esteja aqui o verdadeiro problema. Deixar de desejar talvez seja o principio do fim, mas eu só desejo a paz que procuro e não consigo encontrar. E a falta de entusiasmo que foi coisa que sempre tive para dar e vender é um problema, o meu verdadeiro problema. deixar de acreditar é um vácuo que te suga a vida e foi esse o resultado do caminho que segui nos últimos anos. Mas não vejo outro, nem sequer um atalho viável e estou perdida na floresta já há demasiado tempo sem saber para onde ir a seguir e o que fazer para me reencontrar. Se doi? Não, já nem me doí nada, só o corpo, do cansaço de tudo isto.