Os restos dentro dos meus olhos

Já cheira a restolho.

Os dias na sua lentidão de pulo de pardal devolvem-me à memória a vida, nas suas curvas e contracurvas.

O corpo cheira ao fim dos dias grandes, num misto de suor e calor, tentando guardar por dentro os sorrisos que acumulamos com o sol, para que nos sirvam de combustível, nas agruras do Inverno. De todas as vezes que me chegam as réstias de um Agosto que tento guardar pela vida inteira, a boca sabe ao sal que não distingo se o de mar se o de lágrimas. Dezembro anuncia-se levemente por entre as folhas do calendário e chegará de novo um ano que vestido de capote, se chamará novo com o passar de um dia apenas… e o corpo cheira-me à saudade escondida por baixo do peso dos ombros. Haverão sempre datas que nos marcam a vida.

Um Setembro que me anunciará para sempre um ano novo, que da morte se faz uma nova vida, e um dezembro em jeito de carta fechada que se abre para dar lugar ás linhas onde se escreverá uma nova vida.

Agosto cheira-me a um restolho que do que sobra se fará renascer algo depois . O futuro são as linhas, a folha branca, a vontade de escrever tudo de novo sobre assuntos gastos, agastados, reaprendidos e renascidos. É este o tempo que do silencio me refaço em novos sonhos por sonhar, novas alegrias e tristezas por chorar. Sou feita de estações, tal como um ano inteiro se abre e fecha com o passar das folhas das árvores e do calendário. O calor que guardo por dentro será a chama que me aquecerá o Inverno. Foi sempre assim, assim será. De uma lágrima apenas, sonho um oceano de verdades em ondas a bater furiosas ou mansas conforme a lua que me dá. Das tempestades se guarda o que sobrou. Agosto fecha sempre a porta em festa, por estes lados, mas encerra desde há muito tempo o fim de um sonho. Dezembro trará sempre novas verdades.

Que a liberdade de sonhar um tempo melhor nunca deixarei que me a tomem. Amar é um verbo demasiado rico para poder ser roubado por inteiro.