Em modo automático

Ainda me estou a tentar entender com tudo isto, apesar de parecer que já me oriento bem com ela. Não consegui ainda compreender os mecanismos que despoletam a crise embora já reconheça os primeiros sintomas de que vai haver desgraça próxima. De cada vez que tenho uma crise descubro um novo pormenor. Na verdade, cada vez a compreendo melhor mas ainda não chega para me sentir controlada, embora pareça que de cada nova crise me demore menos tempo a recuperar. Desta vez percebi que antes de ter uma nova crise passo os dias anteriores sem sonhar. Eu que sonhava muito, passei um longo período (o da depressão) sem sonhar. Quando me recuperei recomecei a sonhar e noites sonhadas significam dias em que me sinto recomposta. Há pelo menos 3 dias que não sonhava. A sensação que tenho é que alguém vai desligando os botões até ficar com o quadro geral totalmente em off. Começo por sentir o cansaço normal que sentia antes. Depois, lentamente deixo de conseguir prestar atenção ao que me dizem, a capacidade de memorizar coisas simples também vai desvanecendo e finalmente fico completamente alienada. Faço o que me mandam fazer sem reflexões ou pensamentos, completamente em modo automático. As crises começam sempre enquanto trabalho. A condução necessária  para chegar a casa faz-se perto do limite de velocidade mínimo, sem ultrapassagens, impedida de distracções, sem grandes conversas se vier acompanhada, que qualquer distracção pode ser a “morte do artista”. Completamente em modo automático. Conduzir é um pouco como andar de bicicleta, não nos esquecemos como se faz mas quando entro neste limbo semi-consciente a sensação que tenho é que só os processos automáticos se conseguem realizar. O meu único pensamento foca-se na minha cama, tenho desesperadamente que chegar à minha cama, ao silêncio e ao escuro para poder desligar completamente. Só depois é que vêm as dores e o peso. Parece incrível, mas muitas vezes só quando chego a casa é que me permito sentir a dor e então sim, doí que se farta. Dói tudo, umas vezes num sítio, outras noutro, umas vezes mais ósseo outras mais muscular. Ontem as carrascas foram as pernas. A dor, depois a sensação de peso, essa que defino como se trouxesse o atlas atracado aos meus ombros. Tomo a medicação e nada mais posso fazer do que esperar, esperar que passe. Não consigo ler os meus livros, a televisão imite demasiada luz e ruído, vou passando os olhos pelo facebook e pela internet na esperança de um alivio até adormecer. Não sonho nos dias que doi. Os comprimidos são retard e portanto não tenho garantias que acorde bem. Muitas vezes não acordo bem, outras não consigo dormir e então tomo medicação para dormir: a dormir não tenho dores e antes de ter medicação que fizesse efeito na dor era sempre essa a solução, tentar tudo o que conseguisse para me fazer dormir. Depois da dor vêm as parestesias: a dormência nas mãos ou nos pés. Hoje acordei dormente da cintura para baixo, com dor. Enquanto escrevo estas palavras apercebo-me que já estou a melhorar. A caminho de regresso é feito pela mesma ordem. Senti o cansaço normal, que sentia antes, começo lentamente a conseguir prestar atenção ao que me dizem, a capacidade de memorizar regressa e parece que então sim, desperto. A dor é sempre a última a ir embora. A cabeça começa a querer fazer tudo outra vez mas o corpo não deixa. Tenho que andar bem medicada nos próximos dias para evitar sentir muita dor e não voltar a despoletar o processo de “aparvalhação”, que é esse que me custa mais. A necessidade vital de conforto e sossego distancia-me das coisas que gosto de fazer e faz-me perder momentos onde queria muito ter estado presente. Foi um grande passo para mim conseguir dar-lhe um nome. Chama-se fibromialgia e vive comigo há muito mais anos do que eu desejaria ( pelo menos 10, pelo que me lembro). Lutei muito contra ela até que me venceu. Agora luto com ela. Sei que só ficarei melhor no dia que a compreender plenamente, no dia em que souber claramente o que me deixa e não deixa fazer.  No dia em que souber que se fizer isto as consequências vão ser estas e então aí, decidir o que vale ou não a pena sofrer para poder ter. O fim de Agosto, princípios de Setembro é sempre uma altura complicada, difícil de gerir, cheia de incertezas, contas a ser pagas, coisas por fazer e um ano inteiro a decidir. Gerir o que se pode e o que se quer fazer é muito mais complicado do que parece à primeira vista. Horários, tarefas, exercícios que agora são essenciais, escola, exames médicos, desejos e sonhos enchem o saco que terei que carregar, desembrulhar e perceber o que pode ou não ser possível. E no meio de tudo isto saber que ela está à espreita pronta para me jogar ao chão e quando isso acontecer é deixar fluir, sabendo que por um ou dois dias vou andar num limbo a que chamo não vida, nem morte, estou “práqui”, a esperar que passe para poder ir à feira conforme tinha programado.