A vida é bela

Há já algum tempo que não sentia o cansaço como hoje. Medito algumas vezes no que ouvi dizerem-me um outro dia – qualquer coisa como: é no tempo em que podes descansar mais, que te sentes mais cansada, porque podes sentir-te assim. Seja! Também podia dizer que a aposta em abrandar um pouco o ritmo e tentar refriar as constantes mudanças de turno, a que as 40 horas obrigam, e o duplo emprego – um part-time a que as despesas ( ou a crise , se preferirem e não dar aspecto de despesista) – obrigam, me permitiram diminuir a dose de medicação e que isso também tem consequências ( bem me queria parecer que ontem devia ter tomado o comprimidinho milagroso mas , mais uma vez, achei que ia conseguir aguentar) . Ainda assim, e embora não tenha conseguido fazer tudo o que tinha previsto para hoje, já adiantei bastante as tarefas “orgazinacionais” que tinha para completar. Desconfio que já tenho uma máquina de calcular valores aproximados na cabeça, que me permite fazer contas com tabelas de despesas, ganhos , descontos e valores a crédito e a débito a uma velocidade que até a mim me espanta. Já não estava habituada a ter a cabecinha a funcionar tão bem há muito tempo a que se soma a contemplação dos resultados com aquela sensação de dever cumprido. Ah! como é bela a vida. Revisão do carro e da coluna marcadas ou em vias de; pagamentos realizados; nova previsão para o mês com boas perspectivas entre créditos e débitos; a loucura consumista do mês também já perspectivada e daqui para a frente é gestão corrente ( espero eu) . pffff!!!Na verdade olho para trás, para o último ano e penso que talvez tenha corrido melhor do que esperava. Até já consegui, um dia, deitar-me no sofá a ver televisão e imaginem! não me sentir culpada por ter deixado alguma coisa por fazer ( porque não deixei e isso é uma coisa espantosamente nova para mim) . Hoje os planos são experimentar outra vez para ver se consigo…

E por falar em a vida é bela, como tenho saudades de ver um filme assim

Um clássico

Quando há alguns anos insisti em chegar mais cedo a um festival porque queria ver uma banda portuguesa que iria actuar num dos palcos laterais, estava longe de imaginar que tudo o que fizessem a partir daí iria fazer parte da minha história de alguma forma. Depois disso voltei a vê-los ao vivo algumas vezes mas nenhuma vivida tão intensamente como no coliseu, onde a voz e a presença em palco me provocaram sensações que perdurarão na memória. É para isso também que servem os espectáculos, a arte , se preferirem. Podem provocar-nos sensações inesquecíveis e outras que vamos querer nunca mais recordar. Tenho facilidade em bloqueios e embora haja quem ache estranho eu agradeço à natureza por me ter dado esta capacidade. Se não fosse ela algumas memória de vida seriam muito difíceis de ultrapassar.  Com 20 anos de carreira, ouço-os desde o primeiro album e não me arrependo. É que mesmo já não sendo a jovem que fui ainda acredito que algumas músicas parece que foram feitas para mim

…e no fim da grande estrada há sempre um partir, mesmo que sinta que algo em mim aqui morreu…      Sou eu .

Ps: agradeço ao meu sporting que num dia em que muito precisava me demonstrou que mesmo num ambiente hostil, quase infernal, podemos sempre mostrar a garra de que somos feitos e no fim das contas quem sabe, até ganhar. Ganhar e perder dependem sempre do ponto de vista e da forma como olhamos o que acontece e é daí que retiramos a paz de que tanto necessitamos por estes dias.

Hoje cheirou-me a castanhas, assadas. Não é que por aqui as haja, em cada esquina, a fumegar e crepitar de sal no fogo. Aqui não existem, pelo menos não com a mesma precisão de quem que mostrar a quem, apressado, não deu conta que o Outono chegou. Pergunto-me muitas vezes de onde virão estes cheiros que sinto sem razão plausível. Serão memórias, saudades ou apenas o meu cérebro a relembrar- me, apressada que também vou, que o Outono chegou. É motivo para descer à terra e quase que ouço o amolador  na sua toada de adivinhador de chuva. Mas ele não vem para este lado, hoje. Ainda assim o cheiro das castanhas que não crepitam no fogo à esquina, fez-me descer a mim, ao meu corpo e ao lugar onde estava naquele instante. É a luz que incide num ângulo diferente, dando outro tom aos dias do agora, é o abraço do calor que é agora mais leve e aconchegante, é a tarde que se faz mais cedo. Hoje cheirou-me às castanhas da minha juventude, como se a vida me quisesse sussurrar ao ouvido: acorda, o Outono chegou! E eu fiquei a vê-lo chegar-se a mim.

No Reino de Aquém e Além dor

Costumo dizer que há músicas que nos definem. Há quem tenha uma música favorita, eu tenho muitas. Há, por isso, muitas músicas que me podem definir: depende do estado de espírito, do dia, do que me vai no pensamento; uma fase da vida, …coisas… ou como diria um colega meu, cenas. Geralmente são as mais antigas, aquelas que passaram mais momentos importantes comigo, ou alguma que marca uma fase inesquecível ou que me lembra alguém. Hoje lembrei-me desta, porque foi com a Florbela que compreendi melhor o que o Alentejo nos pode fazer por dentro. Tenho para mim que ter uma planície aparentemente sem principio nem fim que desagua num oceano, como berço, nos faz acreditar que teremos sempre caminho por e para seguir, sempre, mesmo que pareça difícil o horizonte a alcançar. Deixo-vos os Trovante, para mim uma das melhores bandas portuguesas, num poema extraordinário de Florbela Espanca.

     Porque perdermo-nos por amor a alguma coisa ( pessoa, ideal, sonho, profissão)  é a única verdadeira razão de estarmos vivos