Hoje cheirou-me a castanhas, assadas. Não é que por aqui as haja, em cada esquina, a fumegar e crepitar de sal no fogo. Aqui não existem, pelo menos não com a mesma precisão de quem que mostrar a quem, apressado, não deu conta que o Outono chegou. Pergunto-me muitas vezes de onde virão estes cheiros que sinto sem razão plausível. Serão memórias, saudades ou apenas o meu cérebro a relembrar- me, apressada que também vou, que o Outono chegou. É motivo para descer à terra e quase que ouço o amolador  na sua toada de adivinhador de chuva. Mas ele não vem para este lado, hoje. Ainda assim o cheiro das castanhas que não crepitam no fogo à esquina, fez-me descer a mim, ao meu corpo e ao lugar onde estava naquele instante. É a luz que incide num ângulo diferente, dando outro tom aos dias do agora, é o abraço do calor que é agora mais leve e aconchegante, é a tarde que se faz mais cedo. Hoje cheirou-me às castanhas da minha juventude, como se a vida me quisesse sussurrar ao ouvido: acorda, o Outono chegou! E eu fiquei a vê-lo chegar-se a mim.