Saber, saber ser, saber estar, saber fazer

Costumo dizer que tenho feito história em conjunto com a enfermagem. Há quase 20 anos quando, decidida que estava a ingressar numa Universidade pública, percebi que as notas não chegavam para o que achava que queria fazer , havia uma decisão para tomar. Parece simplista o que vou dizer mas porque o caminho que tive que percorrer não foi o mais ortodoxo, uma vez que me encontrava já numa fase a que muitos só chegariam depois, o estudar “fora de casa”, nessa altura conhecia o suficiente de mim para saber que se parasse um ano para tentar melhor iria perder o rumo pelo que melhorar notas não era opção. Tinha que “entrar”. Foram por esses anos as primeiras edições duma revista que me foi muito útil e que se chamava forum estudante. Naquelas páginas haveria de estar a solução para mim. Lembro como se fosse hoje, sentada na ampla sala da nossa casa de Setúbal, naquele sofá que ainda hoje o melhor que lhe defino de cor é cor de burro quando foge cianosado, a revista abre-se numa página que definia uma “profissão de coração” ( o símbolo do coração no inicio da página definia provavelmente a vertente saúde mas foi assim que me ficou marcada na memória a hora da decisão) . “Olha, eu nem sabia que enfermagem era curso superior, que engraçado.” A psicologia em que imaginava os calhamaços maçudos ( nem cheguei a tentar) a farmácia ( que nesse ano ficou a uns míseros 0,5 pontos percentuais do número que me dava o passaporte de entrada) e a bioquímica, a minha grande paixão, mas que não lhe vislumbrava grande utilidade que não fosse a de seguir a via de ensino e do ensino andava eu saturada até à raiz dos cabelos ( mal sabia eu que o bichinho da formação própria e alheia nunca mais me iria largar). Foi assim que depois das 2 faculdades de farmácia ( Coimbra e Lisboa) apareceu a Bissaya Barreto (porque lhe achei piada ao nome) e a Calouste Gulbenkian ( porque só pelo nome me confirmava seriedade) à frente das bioquimicas de Coimbra e Lisboa (porque se tivesse que ser professora pela vida fora ao menos que fosse de uma coisa que realmente gostasse) no meu boletim do euromilhões. E “Tchanam” assim me vejo a ingressar na Bissaya com, como se pode notar, a perfeita noção daquilo para que ia!!! Com o pré acordo familiar de que iria um ano e ao fim do 1º ano pediria transferência para outro curso ( meu querido paizinho, tu bem tentaste safar-me disto tudo, mas devias saber que condições sine qua non para mim são meio caminho para me tornar tão teimosa quanto uma mula de carga!)  e Vá que fui! e vá que depois do 1º mês de estágio na medicina III homens do HUC, nunca mais quis ser outra coisa na vida (até à pouco tempo, altura em que o burnout quase que me ia vencendo) . Foi enquanto estudante que participei nas lutas pela licenciatura ( fui o último bacharelato em enfermagem) foi enquanto estudante que nos inundaram com o REPE ( Regulamento do Exercício Profissional dos Enfermeiros)  fresquíssimo a sair da imprensa do hemiciclo de tal modo que durante algum tempo lhe soube passagens de cor e ainda hoje consigo identificar se algum assunto que necessito ou de que falamos se encontra previsto ou não no REPE. A Ordem nasceu quando eu nasci para a enfermagem. Vi a ordem nascer com todo o orgulho de quem sabe o peso e a importância da sua profissão para a sociedade e o vê finalmente reconhecido. Fiz a licenciatura, cursos de trauma, 3 SAV`s um SIV, uma pós-graduação em urgência e emergência.Vi a enfermagem nos anos de maior florescimento ( penso eu) em que acreditávamos que a competência advém do conhecimento e em que sabíamos que é na relação que a pessoa se faz . O ser humano na sua vertente bio-psico-social um todo sempre em constante mutação nos movimentos das várias fases da vida e constante permuta entre o estado saúde/doença. A enfermagem era, para mim, um mundo! Depois dos primeiros anos de encantamento vem o choque da realidade, aquela fase em que percebemos que a teoria, na prática, é tantas vezes impraticável. Achávamos nós, tristes crianças na coisa, que tínhamos ainda muitos restos de coisas antigas, desactualizadas, que  urgia serem mudadas, e urgia, mas é o peso da história que nos dá seriedade e essa ainda continuamos hoje a fazê-la. A Ordem nasceu, cresceu ( pouco) e tal como a grande maioria das instituições deste país divorciou-se dos enfermeiros, dizem que se tornou em apenas mais uma forma de “poleiro”. Não sei se porque sim se foi apenas coincidência, na altura em que a profissão começou a ser mais “atacada” e desvalorizada, deu-se uma alteração dos seus estatutos:
Cabe aos enfermeiros auto-regular-se e controlar a sua prática. Somos uma profissão! Cabe aos enfermeiros escolher a forma e quem querem para proceder a esse regulamento. Cabe aos enfermeiros informar-se, tentar saber mais sobre quem faz e o que faz na nossa Ordem. Se queremos mais e melhor é necessário querer saber e participar. Nós somos muito importantes no nosso país, mesmo que politicas de vistas curtas e péssimo conhecimento de causa, politicas que dêem a primazia aos números ao invés de pessoas, nos façam crer que não. Mesmo que nos queiram tratar como escravos e nos desvalorizarem no campo das politicas da saúde, são muitas vezes os enfermeiros que levam ao sucesso ou à inviabilização dessas mesmas politicas. É necessário que nós próprios reconheçamos o nosso valor, para que nos valorizem! Não é à toa que países mais desenvolvidos promovem ” corredores de captação de enfermeiros portugueses”. Esses países sabem que bons enfermeiros, satisfeitos, bem remunerados e em número suficiente, promovem a longo prazo a diminuição dos gastos em saúde, enquanto em Portugal, quando se quer poupar,desvalorizam-se os enfermeiros o seu corpo de conhecimento e o seu papel na sociedade. Somos 66 mil temos que fazer valer o conhecimento que nos esforçamos todos os dias por adquirir 

Informações sobre as listas aqui
e eu tenho uma especialidade para terminar !