A última morada

O fundo do quintal dava para aquela que era a última morada de toda a gente. No quintal crescia um pouco de tudo, quase ao Deus dará. Não poderia dizer-se que o tamanho era a maior qualidade do que crescia, mas era bom e na sua pequenez tinha também alguma graça e doçura, se fosse essa a qualidade que deveria existir na produção. Olhava muitas vezes para o quintal, enquanto pensava que, fossem as coisas como fossem, daria, sempre que pudesse, o melhor que conseguisse. Conseguir em pleno não era, por assim dizer, a melhor das suas qualidades.
A casa era silenciosa e acolhedora o quanto baste para se sentir confortável. Apesar das frinchas, que completavam o seu complicado mecanismo de ar condicionado, o sitio era quente. Tinha uma paixão pela sua amostra de lareira e ainda assim isso não era suficiente para a acender todos os dias. O cansaço vence demasiadas vezes o amor que temos por qualquer coisa, seja lá isso o que for. Era o silêncio a grande porta de entrada para o seu lugar predilecto. O monitor da TV poderia estar ligado ou desligado, isso dependeria de quem estivesse por companhia e ainda assim conseguiria entrar. Entre o futuro e o passado há uma brecha que só percorre quem sabe o caminho. É nessa brecha que ela habita nos seus melhores momentos.  São as emoções, as recordações e aquilo que se sabe daquilo que se vê, que formam a grande massa com que construímos os sonhos e os sonhos, esses, são diferentes para todos nós. Nunca sonhara um quintal assim, mas achava-lhe piada à perfeição da pequenez. Tudo o que é pequeno tem graça, ouvia dizer vezes sem conta. Agora isso havia sido trazido da sua brecha de sonho. Gostava de lá morar muito mais vezes do que realmente acontece, mas a vida é um caminho que se faz quase em contínuo, com diminuição da visibilidade, como se fosse um conduzir no meio do nevoeiro: e mesmo assim ainda esperamos a chegada do D. Sebastião perdido.  
É nos dias em que não habita a brecha, os dias em que mais sofre. Talvez seja a saudade ou apenas a falta que sente daquilo que é para ela uma necessidade. Tanto quanto viver. Tanto quanto sonhar. Tanto quanto acreditar. O sitio não tem nome de rua mas o quintal dá para aquela que é a última morada de toda a gente.

 

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