A vela

A vela estava acesa e tremelicava a luz escassa que se derramava pela sala. Diria que lhe dava um ar medieval, à sala e à sensação que vestia por estar assim. A lareira ocupava a parede e ela sentada lá dentro segurava entre as mãos tremulas uma malga a transbordar de café quentinho. Não estava sozinha embora assim lhe parecesse. Afinal não era só a vela que iluminava a sala era também aquele enorme lume de chão e a  voz dos outros. Falava-se de quê? Não conseguia compreender mas nem tentava. Desistira à muito que tentar mostrar interesse por coisas que a enfastiavam. Eles falavam, todos, muito, em demasia lhe parecia. Ela entrara à muito dentro do fogo quente. Os olhos fixos teriam sido o seu ponto de entrada e não era ela que se aproximara do lume, foi o lume que entrou, dentro. Conversavam sobre a vida, o futuro, numa linguagem muda, que os outros trocando palavras comuns nunca chegariam a entender. Desconfio que nem deram por a vida que lhe ia por dentro enquanto se mantinha imóvel. Tantas vezes o mundo se passa mesmo ao nosso lado e não conseguimos nem pressenti-lo. Soube do passado e do futuro, dos planos e das ideias, soube coisas que se encaixam em contas prolongadas por muitos anos, sob subtracções de linhas terrestres e de mapas astrais. Foi o som do brinde que a despertou, brindavam a quê? Ah! sim á vida. Que vida? A vela apagou-se mas ninguém deu por isso porque a labareda na lareira continuava a iluminar e aquecer. Ela ficou só mais consciente, o resto seriam conversas que não interessariam a ninguém e de resto pouca gente entende as linhas com que se escreve a história do universo.