Quando o sexo tem outro valor

Às vezes penso que a nossa visão de sociedade sofreu o enviesamento tal que, de modo geral, “os pensadores” nem se apercebem das barbaridades que dizem ( e aqui se pode incluir cada um de nós, sendo que muitas vezes depois de reflectir sobre o que dizemos poderemos e deveremos chegar à conclusão de que estamos errados). Li este texto e a minha primeira reacção foi querer ler o artigo completo. A conversa da discriminação de género ( para ser politicamente correcta e não incluir a palavra sexo) é tão antiga como o séc.. XX ou mais ainda já que o grande movimento para a igualdade entre os homens e as mulheres começou no séc. XIX .
 
 Em pleno séc. XXI economistas modernos continuam a discutir o problema da produtividade das mulheres. Mas discutem-no de uma forma simplista e a meu ver na única perspectiva que lhes interessa, a do lucro, o que leva a uma visão demasiado simplista da “coisa”. Não discordo que uma mãe seja menos produtiva para uma empresa. O que eu discordo é da noção de produtividade.
 
Tenho para mim que a demasiada especialidade numa determinada área diminui a visão global e leva a conclusões demasiado simplistas que depois, na realidade, não são funcionais porque não prevêem outros factores importantes. Eu explico: é sabido, por estudos demográficos que (como é lógico) influenciam o equilíbrio económico dos países, que a “velha Europa” está a ficar isso mesmo, velha. Tem a ver com o aumento da esperança média de vida, com os melhores cuidados de saúde mas também com um outro problema, a baixa taxa de natalidade, ou seja, nascem hoje muito menos bebés do que antes. Isto deve-se para além de outros factores, sobretudo, à inserção das mulheres no mercado de trabalho, onde como se diz no artigo enquanto jovens as mulheres são tão produtivas como qualquer homem. São e gostam de o ser, porque a sensação de realização pessoal é muito importante na vida de qualquer pessoa.  
 
Isso leva a que prolonguem cada vez mais o seu dito “tempo de produtividade em que se sentem iguais” . Ora as sociedades evoluem mas a biologia demora muito mais tempo e pese embora a qualidade  dos cuidados de saúde ter aumentado muito, a verdade é que ser mãe aos 34 ou aos 44 é completamente diferente, traz riscos acrescidos para as crianças e sobretudo para as mães  com o consequente aumento do custo de uma gravidez para a sociedade ( primeiro problema na perspectiva económica).
 
Achei de um mau gosto extremo a afirmação ” a baixa produtividade das mulheres com filhos contamina os salários das mulheres que não têm filhos” que me parece levar a que qualquer dia estejam as mulheres sem filhos a lutar pela desqualificação das mulheres com filhos ( … será que não existe já? pergunta de retórica…) levando a uma competição muito pouco saudável e a médio, longo prazo, desprestigiante para as organizações porque leva no limite a regras de deslealdade e um péssimo trabalho de equipa.
 
Voltando à perspectiva geral, o incentivo à natalidade é, e deve ser, uma politica de futuro para as sociedades europeias com o risco de se não as tomar a própria Europa perder a batalha da competitividade: o futuro são sempre as pessoas.
 
Ora, atacar o motivo da baixa produtividade das mães é um assunto sério. Mas não visto da forma como se vê neste artigo. É que, na realidade, a baixa produtividade das mães com filhos, não existe, é um mito! O que acontece é que uma mãe com filhos tem o dobro das horas de trabalho do que uma mãe sem filhos, e isto é uma realidade não porque as mães tenham ” um indisfarçável sentimento de propriedade em relação aos bebés” mas porque a biologia assim o obriga – e aqui volto novamente às justificações económicas para que se perceba melhor : Um bebé , numa situação ideal, deveria ser amamentado a peito ( vulgo mama, que penso ainda não haver evolução suficiente para que sejam os pais a fazê-lo) durante pelo menos um ano. É sabido que isso nem sempre é possível mas seria o ideal, tem menos custos para a saúde e no limite para a sociedade, uma vez que a alimentação a leite materno exclusivo é muito mais saudável permitindo que a mãe transmita ao filho muita da sua resistência imunológica sendo que crianças alimentadas a leite materno têm menos probabilidade de desenvolver problemas como obesidade e outros futuros problemas metabólicos ( uma vacina natural, portanto). Em termos psicológicos a amamentação também é muito importante porque aumenta o vínculo e a segurança do bebé já que a presença e o contacto são muito importantes no desenvolvimento psico-motor da criança ( não que este vínculo não possa ser feito com o pai, o que acontece é que nem todos os pais têm a mesma disponibilidade mental para a percepção desta importância).
 
Sou a favor da igualdade da licença parental em relação à maternal, aliás sou a favor a que os pais possam decidir , em conjunto, qual dos dois deve ficar com a criança e os tempos que cada um deve ficar. O que não posso nunca é ser a favor da diminuição do tempo disponível para as crianças ou até que estas fiquem “abandonadas” porque os pais necessitam de trabalhar para viver. Uma sociedade como a Portuguesa, onde há tão poucos apoios ou suportes, onde as empresas não facilitam a maternidade, onde não se criam estruturas sociais para que os seus trabalhadores possam assumir a sua opção de ter filhos, é uma sociedade injusta, que caminha para a desigualdade e para a instabilidade social.
 
Quando os lucros de uma empresa se sobrepõem ao bem-estar de todos, essa empresa está num futuro talvez próximo, condenada ao insucesso por promoção de comportamentos desleais e desmotivação. É a escravização das pessoas pelo sucesso dos números, é aquilo que temos. O resultado está mais que à vista, basta olhar bem para o presente, para a actualidade da nossa Europa: instabilidade, recessão, insegurança, desmotivação. Os lucros em detrimento das pessoas e a produtividade vista na mera perspectiva laboral.
 
Os cidadãos não participam, porque no limite não têm disponibilidade mental nem viabilidade económica para o fazer, porque não vêm das entidades patronais uma real preocupação com o seu bem-estar e isto já para não falar no problema das mães solteiras, que “daria muito mais pano para mangas”!
 
No fundo, no fundo é Isto