Como salvar uma vida

Tinha preparado um post todo lindinho sobre a  festa de Natal da Ludoteca mas depois a vida tem destas coisas e decidi falar sobre uma coisa que me tem afligido nos últimos dias ( e as festas da Ludoteca – ainda bem – não são coisa rara e posso sempre falar sobre elas depois. Sobre isto talvez se perca o timing perfeito da reflexão) . 
Morreu um jovem em S. José. A morte é uma coisa não rara para quem trabalha em meio hospitalar. O que é mais doloroso é a morte que poderia ter sido evitada. É aqui que começa o ” jogo perigoso”. À partida, muitas mortes podem hoje ser evitadas. Mas só à partida. São tantos os factores que se cruzam neste jogo entre a vida e a morte que toda e qualquer decisão pode ter consequências fatais. Todos nós, que fazemos da saúde dos outros a nossa forma de “ganhar a vida” carregamos esse peso decisório nos ombros, todos. Temos consciência e temos responsabilidade. Temos até várias consequências na nossa vida pessoal, por demasiadas vezes pormos a vida dos outros à frente da nossa vida.  Esta e tantas outras mortes, talvez menos mediatizadas porque não num hospital de grande envergadura e na capital, foram consequência, não tanto de mau profissionalismo, mas sobretudo de uma má gestão dos poucos recursos que dispomos ( como país, sim, habituem-se, apesar do SNS ser um pequeno diamante, é um diamante que se alimenta de um fraco filão). Os profissionais de saúde não são voluntários, embora se disponibilizem tantas vezes a fazer mais horas do que a jornada prevê. Os profissionais de saúde não são desprovidos de sentimentos, temos é demasiadas tragédias em mãos e sabemos de antemão que a nossa capacidade humana é limitada e por muito que queiramos, não fazemos milagres. Morreu um jovem em São José, porque não havia uma equipa de neurocirurgia para operar. 
Imaginem um neurocirurgião. Alguém que estudou muitos anos, que tem que ter uma capacidade técnica, para além da teórica, muitissímo afinada. Afinal, ele corta num local que nos é vital. Sem cérebro, não somos nada, é o nosso disco rígido, o nosso arquivo, é aquele que comanda tudo o resto, cortar um milimetro a mais ou um milimetro a menos pode ser fatal. Agora imaginem a pressão que alguém sente quando sabe que um erro seu custa uma vida. A mão não pode tremer. Isto implica não poder tomar café, provavelmente não fazer umas boas noitadas com amigos… Muitas restrições para poder ter as suas capacidades no auge. Quanto vale a vida pessoal de alguém? ninguém sabe, mas as sucessivas tutelas dizem-nos que valemos pouco, nós os profissionais que abdicamos da nossa vida, pela melhor vida dos outros. Alguns jornalistas ajudam, porque é muito mais fácil, sempre, imputar a culpa em alguém que não está, mas deveria estar num determinado posto, do que tirar as ilações devidas. Deveria estar sim, mas é também um dever de quem sabe que ele lá deveria estar, saber dar-lhe o valor que ele tem por conseguir salvar vidas. De quem é a tal culpa então? 
Quando se exige algo, deve exigir-se a quem de direito. Não se pode exigir a profissionais que andam cansados, desmotivados e tantas vezes mal valorizados que abdiquem da sua vida pessoal, por um ordenado que não paga o investimento pessoal e monetário que fazem na sua formação, para poder saber ainda mais, ou seja, para salvar mais vidas. 
Tenho vários episódios partilháveis, mas este penso que ilustra bem o que aconteceu ao nosso SNS ( o bem mais precioso que a liberdade nos deu). Deve ter sido por alturas do Verão que é das alturas que  nossa população aumenta mais devido à proximidade da praia. Um casal com 2 filhos de férias perto de Odemira. Chegaram-me à triagem pediátrica exaustos e sem paciência. Um sorriso meu ( sempre, é preciso estar muito cansada e garanto-vos, nos últimos anos tenho estado muito) o melhor desbloqueador de “mau feitio” . Conversamos. Finalmente a pergunta: 2 horas sra enfermeira, demorámos 2 horas a chegar aqui. Fomos ao centro de saúde, como nos indicaram na linha da saúde 24 e de lá disseram-nos que teríamos que vir para aqui porque só aqui há pediatra. Foi difícil chegar aqui, tem pouca sinalização e não conhecemos os caminhos. Mas como é que as pessoas deste lugar fazem para ir ao pediatra? Lá lhes expliquei que ter acesso a um pediatra àquela hora só ali, de resto só consultórios privados em dias específicos e horas determinadas. Ironizei, como sempre: as crianças daqui não ficam doentes, ou se ficarem têm que ter dias específicos para isso. Não estamos habituados sra enfermeira, em Lisboa se quisermos temos uma série de hipóteses hospitalares e ainda os privados. 
Pois! 
E o jogo de vida e de morte, como será? 
Digam-me, é isto culpa dos profissionais? Será? Ter que fazer contas à vida dos outros, constantemente, decidir sob pressão quem é que se consegue salvar, é culpa dos profissionais? Coitados dos muitos que têm que carregar às costas, as culpas de não conseguir ser super-herói para fazer mais e melhor. Esta é que é a grande verdade: se os profissionais de saúde não estiverem capacitados para decidir com condições de segurança,  se o valor da sua dedicação não for reconhecido, quem é que vai abdicar da sua própria vida, da sua própria saúde, para salvar a vida de alguém? É que pessoas a morrer num hospital há todos os dias, todos os dias, e quase todos são família de alguém. Enquanto isso alguém decide como gastar o dinheiro, algures sentado num qualquer cadeirão almofadado. E é aqui que a sociedade tem que ser muito mais interventiva, na escolha de quem decide como gastar o dinheiro, e porque decide assim e não nos profissionais, que se “matam”, para poder salvar a vida de alguém.