Das coisas que mudam com o passar dos anos

Sou adepta ferrenha da cuequinha, a estrear, azul, para passar o ano ( ou lingerie se quiserem uma versão mais in) . Talvez seja a lingerie a última grande resistente do glamour que eu via nas passagens de ano. Sempre adorei os festejos de passagem. Não sei se era a esperança que me injectavam, se a vontade de fazer mais e melhor ou se este gosto por festas e rituais já nasce connosco.

Desde a época em que as passava em casa com a avó “Vicenta” que me habituei à ideia que nos festejos de ano novo era para ser festa a valer. Houve um ano em que me lembro de passar colada à televisão, que emitia em directo de Tróia   onde estariam os meus pais. Lembro-me do espanto de ver os mergulhos na piscina do bico das lulas, em plena madrugada, os homens totalmente vestidos a atirarem-se das pranchas em voo para a piscina. Oh avó, p’ra qué aquilo? ??? Sei lá filha…olha, é tudo doido!
Mas aquela loucura saudável ficou-me no olho e muitos anos depois também eu quis experimentar a sensação da festa.

A minha primeira passagem de ano fora de casa foi exactamente no bico das lulas. Ainda me lembro da mesa, do amigo que foi de brincadeira  numa festa diferente, e que nunca mais vi. As senhoras de fatos brilhantes e jóias, os senhores de fato e laço ou gravata, eu com uns sapatos a estrear, roupa a estrear, tudo a estrear até as sensações, música e dança até doer as pernas, até o sol nascer. Diziam que se aguentasse podia ser. Não aguentei. Não me lembro de mais nenhuma nos anos que se seguiram.
Lembro-me da primeira passagem  sem os pais por perto. Guardo várias lembranças dessa noite, mas sobretudo da pergunta da minha mãe no dia seguinte: então, tens a boca a saber a papel de música? ( mas porque raio havia a minha boca de saber a papel de música? ) Nesse dia não sabia, mas soube uns anos depois. Excessos de juventude!

Depois pegou a moda dos Algarves, tanto, que juro que já largava Albufeira e IRS pelos olhos, naquela época era como se Grândola se mudasse por uns dias mais para sul. De tal forma que, nos últimos anos ameaçava aos mais próximos: se me convidam novamente para ir para Albufeira eu mordo. Não mordia e ia invariavelmente acabar por ir parar algures entre Monte Choro, Vilamoura  ou Albufeira.

Agora que penso nisso, tenho até saudades dos tempos em que a passagem de ano começava a 29 ou a 30 e acabava a dia 2.

Com a profissão veio a responsabilidade. Vieram os turnos. Com os filhos a indisponibilidade. É este o oitavo ano que trabalho a passagem de ano, nem sempre a noite, mas os dias não dão para a recuperação necessária que este tipo de festa já merece ( os distúrbios que o tempo nos faz ao orgasnismo, vejam bem…)  Ainda assim este continua a ser um tempo de balanços, de medições e agora também de saudades.
Um tempo de reflectir sobre o que espero, de perceber onde vou e para onde quero ir .

Tenho alguma saudade das festas, é verdade. Do dia do ano em que podíamos ( podemos ainda) esperar tudo, um novo futuro nas mãos. Mas agora  os fins de ano servem essencialmente para me olhar ao espelho e perguntar-me : Quo Vadis, sra?