A forma

Estamos vivos.

Pelas brumas do espaço pediste-me para estar calada. Apaguei as luzes

É só luz.
O corpo está lá todo, tomando a mesma forma.
As mãos.
Sentem o mesmo.
A porta está aberta, lá fora o candeeiro da rua aguarda a ordem para se apagar.
Quando a luz chegar, na madrugada, ficarei calada para te ver chegar.
Virás tão rápido que mal terei tempo para te ver.
Está tanto escuro aqui.
Mas as mãos sentem.
Cada pedaço tal como o imaginei. Melhor ainda.

Só não me deixes gritar.
Que tenho inscritas nas linhas da vida, todas as feridas feitas por chamar demais.

Não Sangro.
Já não sangram as feridas. Habituei- me ao que te pedi.
Sou já eu que não sei gritar.
Vamos ensinar-nos os caminhos.

De novo o caminho . Retoma o lugar das formas que me ficaram nas mãos. Devolve a vida ao corpo que ficou parado no instante que chegaste e partiste.
Rápido, tão rápido que engoli tudo o que pude na gula de quem não quer perder pitada.
Saciado?
partiste, para nunca mais te ver.

Volta.
Apagaram-se as luzes. Silenciosamente .
Não há palavras que descrevam momentos únicos.
Porque palavras não passam disso mas as mãos sentem.
As minhas mãos ainda te sentem.
Estamos vivos.