Dias Maiores

Os dias estão maiores e isso sente-se em cada poro da nossa pele. Futebol, hóquei, pouco tempo para mim. O regresso a casa naquela luz morna a entrar pelo vidro, depois do dia de desporto. Sol que nos escuda do frio que faz lá fora e que nos garante que a primavera vem aí, de novo. Temos todos saudades do verão, do nosso tempo mágico, o nosso tempo maior, a nossa vida de sonho, de verão.
Antes disso, a noite fria que precedeu o domingo de sol. Esteve frio, por aqui. A noite foi aquecida por uma das coisas que mais gosto: música, boa música! É bom ter acesso fácil a boa música e isso é mérito da autarquia, mas a música é mérito de quem a faz e quando com boa música vêm profissionais que se nota, à distância, que adoram aquilo que fazem, é difícil não ficar fã. Um espectáculo não se compõe só de notas: é o som, a luz, o ambiente, a companhia e garanto-vos, estes senhores sabem o que é fazer espectáculo! Obrigado por me aquecerem a noite, por me fazerem cantar, obrigado por me fazerem feliz por um belo período. Adorei

Há quem diga que todas as noites são de sonhos. 
Mas há também quem garanta que nem todas, só as de verão. No fundo, isso não tem muita importância. 
O que interessa mesmo não é a noite em si, são os sonhos. Sonhos que o homem sonha sempre, em todos os lugares, em todas as épocas do ano, dormindo ou acordado.”

William Shakespeare

Mens sana in corpore sano

Sinto, senti sempre, que esta coisa de ser alentejana não tem tanto a ver com o local onde se nasceu mas com uma forma muito particular de estar na vida. Esta forma particular reveste-se de muitas características mas de todas elas a que mais gosto de destacar é a típica bonacheirice :
bo·na·chei·rão
adjectivo e substantivo masculino
[Informal] Bondoso, sem malícia e paciente. = BONACHÃO, BONACHEIRO
Feminino: bonacheirona.
Palavras relacionadas:
“bonacheirona”, in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa [em linha], 2008-2013, https://www.priberam.pt/dlpo/bonacheirona [consultado em 25-02-2016].
Ora, é esta bondade e também a  paciência que nos leva a saber rir de nós próprios ( sempre desconfiei que ninguém sabe tantas anedotas de alentejanos como o próprio alentejano) mas também são elas que levam, muitas vezes, a confundir-se isso com fraqueza, lentidão ou simplicidade no sentido de pouca esperteza. Uma coisa não tem absolutamente nada a ver com a outra. É simplesmente uma forma de se ver e se estar na vida. É mais do que claro que as migrações e as alterações do mundo, no último século, nos influenciaram também. A pureza das características é coisa do século passado. No entanto, esta paciência concorre, demasiadas vezes, contra nós. É ela que nos permite este deixa andar, esta permissividade que nos envia para a cauda do cometa. Somos os primeiros a desprezar o que nosso há de melhor, ou de bom. Os primeiros a atacar também. Falta-nos  a “idade dos porquês”. Se nos dizem que algo esta mal, em vez de refutar devíamos refletir sobre o assunto. Saber o porquê, ou, pelo menos, tentar saber. Exemplifico: Um alentejano escreve um livro, sobre o Alentejo, desprezando-o. Outros alentejanos diabolizam-no. No meio de tudo isto ( e não tendo lido o livro, apenas um excerto publicado no Observador. Vi também o vídeo no YouTube, da entrevista – triste – que dá na SIC Radical para se promover) o que achei mais interessante foi a reflexão ou a visibilidade que ele dá a um problema que, por mais que tentemos fechar os olhos, persiste em forma de endemia por aqui – o suicídio, as tentativas de suicídio, a depressão. Homens, mulheres, novos e velhos, tentam, conseguem e morrem e não ouve ainda ninguém que se perguntasse o porquê desses números? A crise é uma altura feia e triste, propícia a actos difíceis de explicar – veja-se o caso da mãe que matou as duas filhas, um exemplo claro de sofrimento psicológico atroz – que se tornam tão mais violentos e aterradores quanto menor for o apoio da comunidade e das instituições/organizações sociais, que deveriam existir para os diagnosticar, apoiar e vigiar, para evitar que aconteçam. Os números elevados de depressão e de suicídio, mesmo que na forma tentada, são uma realidade no Alentejo. Convivo com essa realidade há anos no hospital. O que é que acontece a essas pessoas? qual é o seu seguimento? quem as apoia? Que estruturas de saúde mental existem para evitar que as tentativas se repitam, quais são as características da população afectada, as suas estruturas sociais? Quem é que se preocupa com isto, que cruza as relações entre a saúde mental e a saúde física, percebe o problema, sabe como agir  e tenta de alguma forma perceber qual a verdadeira dimensão do problema? De tudo o que já vi e ouvi sobre o referido livro, foram só estas as reflexões que ele me suscitou. A saúde mental é uma das vertentes mais importantes nesse estado complexo que é o ser e sentir-se saudável, não é só o desequilíbrio total que deve ser encarado como patológico, o trabalho deve começar antes, muito antes, aliás como em todos os cuidados de saúde em geral.
“Mens sana in corpore sano”

A pequena felicidade dos livros

Os dias passam já a um ritmo comum, e num repente começam a esticar-se como um gato a fazer alongamentos, espreguiçando-se em frente à lareira. Esticam, esticam e quase que chegam ao fogo. As horas multiplicam-se em quantidades de tarefas realizadas e eu ponho ainda travão, com receio de as esticar demais. Aposto, ainda, que vai faltar alguma coisa importante, mas já não procuro incessantemente, nos confins da mente, aquilo que é importante e que vai de certeza faltar. Comprei livros hoje. Um pequeno mimo patrocinado por uma promoção fantástica a que me permiti. Pequenas coisas que me fazem feliz e que já vou podendo aproveitar. Enquanto as televisões desfilam o seu corrupio de desgraças eu vou desfiando a minha lista de desejos e pondo um visto em cada pequena etapa ultrapassada. Um passo atrás de outro, à espera, do passo que virá à frente. A felicidade é saber o ritmo certo para cada caminhada que compõe a vida

” No one comparesyou stand alone,to every record i ownmusic to my heart that´s what you area song that goes on
and on ” 

Amanhãs

Aos poucos as coisas vão-se organizando nas novas prateleiras que a vida me trouxe. Já não me assusto tanto com as novidades como até aqui. O Baudolino olha para mim, de uma das prateleiras, como que a suplicar: Lê-me até ao fim para começares uma nova aventura. E eu, em pensamento respondo-lhe que sim , que tenho que o fazer, mas a minha pirâmide de prioridades não permite que largue outras para lhe dar prioridade, já, agora, pelo menos não conscientemente, que tenho tantas saudades de ler com vontade… Ainda assim a sensação de peso vai aos poucos ficando mais suave. Estou ainda lenta a voltar àquilo de que realmente gosto.  E amanhã é mais um dia…