Ensaio sobre o que vejo

Fecho os olhos e vejo. A cor do céu a contrastar com a luz pastel, suave, do sol a reflectir na água do rio, ou seria do mar? Talvez estivesse na praia, sim. Longe suavam as vozes das crianças a brincar. Contavam-se histórias mútuas, como se já tivessem vivido o tempo suficiente para as contarem. Eu a querer ouvi-las todas. Lembro-me bem dos ouvir. Também eu quis contar histórias. Tenho muitas, como se também eu tivesse vivido já o tempo suficiente para as contar. Talvez se rissem da minha curiosidade na inocência da criança que não entende o valor que tem.

Vêm-me quase sempre à lembrança músicas, quando a memória me leva para trás. Conto as memórias como as vi talvez nunca como foram, mas cada qual guarda dos momentos a forma como os viveu. Aqui entravam as dunas dos GNR ou talvez as memórias de um beijo do Luís Represas. Senti saudades, tantas. Os miúdos continuaram a rir . Eu a sentir saudades, com o sol a ofuscar-me e a voz da mãe a manda-los calar. Ficaram-me as saudades.

Os Verões já não são os mesmos. É a voz dos meus que ouço agora . Criamos as nossas memórias ao som do tempo que corre, sem medo do que ficará. O tempo trouxe  gentes que fazem novas memórias para si próprias, talvez sejam nossas também. Eu fiquei colada às memórias de um beijo que me soa na cabeça num turbilhão obsessivo. Presa num abraço que ainda hoje tenho terror de perder. Esperando pelas memórias dos miúdos que, entretanto, espero, se tenham tornado uns homenzinhos

Às vezes o melhor da vida não é o que se viveu mas o que se sentiu ao vivê-lo.